Mostrando postagens com marcador Crítica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crítica. Mostrar todas as postagens

7 de outubro de 2015

Crítica: O Congresso Futurista (Le Congrès, 2013)


Quando o cinema fala do próprio cinema nós, expectadores, somos convidados a viajar numa exposição cheia de auto - referências e detalhes minuciosos que configuram o cinema seja como arte ou como indústria. “O Congresso Futurista” (Le Congrès) é uma obra que justamente aborda esse tema que vez ou outra é utilizado por alguns cineastas.  Depois de se consagrar com a animação documental “Valsa com Bashir” em 2008, o diretor israelense Ari Folman retorna ao universo animado (misturado ao live-action), para dessa vez fazer uma crítica à indústria cinematográfica e ao poder que a mesma possui sobre a sociedade. E ele utiliza ferramentas diferenciadas para desenvolver seu filme. Uma pitada surrealista mesclada ao uso da metalinguagem faz de “O Congresso Futurista” uma das ficções-científicas mais densas e interessantes dos últimos anos.

O filme gira em torno da atriz Robin Wright interpretando ela mesma e utiliza alguns aspectos biográficos de sua carreira e vida pessoal. Cotada como queridinha do cinema na época de filmes como “A Princesa Prometida” (1987) e “Forrest Gump” (1994), Robin aparece na primeira cena visivelmente abalada ouvindo seu agente Al (interpretado por Harvey Keitel) explanando as causas que levaram a carreira de Robin ao fracasso: escolhas erradas, papéis em filmes ruins, a decisão de deixar a atuação de lado para cuidar da família. Ele a informa sobre uma importante reunião com um executivo de um grande estúdio de cinema, onde lhe propõem a novidade tecnológica que irá revolucionar a sétima arte: ser escaneada para se tornar uma atriz digital e sua imagem ser usada pelo grande estúdio, aqui chamado de Miramount (uma clara e irônica referência à Miramax e Paramount). Para isso, ela precisaria dar um fim à sua carreira no mundo real, conferindo a ela tempo para cuidar de seu filho mais novo que sofre de uma doença degenerativa que acomete a visão e a audição.

Nesse primeiro ato, o diretor Folman destila todo seu veneno ao fazer uma crítica ácida aos grandes estúdios e produtores executivos que visam única e exclusivamente o lucro.  Ao digitalizar um ator, os realizadores de um filme não mais sofreriam com os problemas envolvendo atrasos, vício em álcool e outras drogas, depressão, temperamento difícil e outros tormentos que afligem inúmeros atores de Hollywood. Os estúdios lucrariam exorbitantemente apenas com a imagem digital, negando aos atores a liberdade criativa para escolher papeis e gêneros de filmes.


É no segundo ato do longa que Folman opta para a imersão no surrealismo. Após 20 anos da assinatura de seu contrato com a Miramount, vemos Robin a caminho de um grande congresso onde será homenageada. Para chegar lá, é preciso inalar uma substância que a transforma em um desenho animado. A cenografia do filme investe num tom lisérgico, misturando traços de animação japonesa com desenhos clássicos do Mickey e um visual que remete ao psicodelismo de Yellow Submarine dos Beatles. Em meio a esse cenário surreal, o roteiro critica a alienação do público perante as promessas impostas pela mídia, como a criação da substância que ao ser ingerida lhe dá a aparência que desejar, até mesmo ser igual a uma celebridade. A tal substância representa a ilusão do livre arbítrio utilizada no filme.

Mas o posicionamento crítico de Ari Folman vai além. No terceiro e melancólico ato, ele nos mostra a partir da busca de Robin pelo reencontro com seu filho, uma visão crítica e um tanto quanto pessimista do futuro da humanidade. Enquanto muitos preferem delirar num mundo animado onde possuem o “livre arbítrio” de serem o que quiserem, outros vivem a desolação que encontra-se o mundo real.

Robin Wright está magnífica, transpondo para esse projeto tão ousado, uma performance orgânica e comovente. Aliás, todo o elenco está excelente. Desde um maquiavélico Danny Huston na pele do chefe da Miramount, até um Harvey Keitel que oscila perfeitamente entre momentos imponentes e momentos doces. Faço também uma menção honrosa à bela participação de Paul Giamatti como o médico do filho de Robin.

Assim como os grandes estúdios cinematográficos utilizam os roteiristas, diretores e principalmente os atores como meros objetos de lucro, o poder midiático está aí para ilusionar a sociedade e usá-la como um simples objeto de massificação. E é por isso que considero “O Congresso Futurista” uma obra mais que atual. 


14 de setembro de 2015

Crítica: Chinatown (1974)


Um dos filmes mais célebres realizado por Roman Polanski, “Chinatown” levou o cinema noir em uma direção totalmente nova, subvertendo o sonho americano em um retrato mais sombrio e sujo da América. Considerado como um filme neo-noir, ele apresenta uma nova roupagem ao gênero famoso das décadas de 30 e 40, que continham sempre as figuras do detetive, da femme fatale e de vilões abomináveis, todos envolvidos em intrigas policiais. 

Em Chinatown, Jack J. Gittes (Jack Nicholson) é um detetive contratado para investigar um caso de adultério a pedido de uma mulher que ele acredita ser Evelyn Mulwray (Diane Ladd), esposa do engenheiro–chefe do Departamento de Águas e Energia de Los Angeles, Hollis Mulwray (Darrell Zwerling). À medida que o caso se desenvolve, Jack se envolve com a verdadeira Sra. Mulwray (Faey Dunaway) em uma intriga de corrupção, fraude,  assassinato e incesto, que de forma magistral desconstrói a típica narrativa de filmes investigativos. Aqui não há espaço para reviravoltas simplistas, mas sim para um desenvolvimento complexo cheio de sutilezas em sua narrativa.
    
O roteiro excepcionalmente escrito por Robert Towne e muito bem amarrado (não foi à toa que ganhou um Oscar de melhor roteiro), revela cuidadosamente os seus muitos mistérios com uma narrativa inteligente e mostra personagens dúbios e cínicos, enaltecendo o lado sujo da natureza humana. Observa-se que é muito difícil determinar quem é o criminoso e quem é a vítima em Chinatown. O tema da ambiguidade moral sustenta o filme. O próprio detetive Gittes apresenta uma moral questionável, apreciando piadas machistas e algumas vezes portando um comportamento agressivo inconsequente (como vemos na cena da barbearia).

Jack Nicholson oferece uma das melhores performances de sua carreira como Gittes, um detetive inteligente, espirituoso e que tem más recordações do bairro Chinatown, no centro de Los Angeles, onde trabalhou durante um período. Truques simples, mas inteligentes, são feitos por ele em sua investigação, como quando ele coloca um relógio sob os pneus do carro de Hollis Mulwray à noite para ver quanto tempo o carro ficou estacionado. Esses momentos nos permitem conhecer a personalidade de Gittes. Além disso, vemos Chinatown através dos olhos dele. Roman Polanski fez questão de retirar qualquer narração em off, filmando tudo sob a perspectiva de seu protagonista (como se a câmera estivesse sempre posicionada sobre os ombros de Gittes), fazendo o espectador ter a impressão de sempre acompanhar as investigações do detetive como se fosse uma testemunha invisível de todos os acontecimentos ao redor dele.

Faye Dunaway vai além da típica femme fatale. Ela incorpora uma personagem que mais que sedutora, esconde segredos profundos e sombrios de seu passado, tornando-a a personagem mais misteriosa e implacável do longa. Em boa parte do filme, não sabemos suas reais motivações no envolvimento com o detetive Gittes nem se a mesma está de fato envolvida na morte do marido. Também vemos a excelente participação de John Huston, como um homem vil e inescrupuloso. Quando entra em cena, Huston rouba todo o momento para si. O próprio Roman Polanski faz uma ponta no filme na famosa cena em que o detetive Gittes tem seu nariz cortado.

“Chinatown” também é notável pelo fim trágico de sua história.  O final foi concebido por Polanski em oposição ao roteirista Robert Towne. Polanski foi provavelmente influenciado por sua própria experiência amarga do assassinato brutal de sua esposa Sharon Tate por seguidores de Charles Mason em Los Angeles.
    
Mesmo em meio aos conflitos entre diretor e roteirista, “Chinatown” é a combinação de todos os elementos que fazem dele um filme inesquecível: desde a inteligência do roteiro e a elegância cinematográfica, passando pela fotografia inovadora para o gênero noir, deixando o clássico P&B e apostando em uma paleta com cores terrosas e uma trilha sonora sublime composta por Jerry Goldsmith. Uma trilha que contribui não só para o clima de tensão e intrigas mas também para dar um certo sabor da década de 30.

Mais do que um clássico inesquecível, vejo em “Chinatown” como um estudo envolvente da corrupção moral, um tema tão relevante hoje como era no tempo em que ele foi filmado.

4 de setembro de 2015

Crítica: Garota Exemplar (Gone Girl, 2014)

    

Sempre que fico sabendo de um projeto assinado por David Fincher, já começo a contar os dias para conferi-lo. Não apenas pelo fato de Fincher ser um de meus cineastas favoritos, mas sobretudo pela certeza de que terei uma experiência cinematográfica sem igual. A qualidade é uma marca registrada em seus filmes. Basta lembrar de thrillers como Seven e Zodíaco e dramas memoráveis como A Rede Social. Em Garota Exemplar (Gone Girl), Fincher mais uma vez nos presenteia com uma obra impactante, crua e minuciosamente bem orquestrada.
    
O filme não é um mero thriller sobre assassinato, mas uma excelente mistura de drama policial com estudo de relacionamentos. Fincher e a roteirista Gillian Flynn, que também escreveu o romance do qual o filme foi adaptado, estão mais preocupados em mostrar as falsidades presentes em um casamento “perfeito” do que apenas nos dar pistas e detalhes de um crime. O diretor e a roteirista pintam o casamento como um verdadeiro jogo.
    
Nick Dunne (Ben Affleck), é, sem trocadilhos, um parceiro super-herói: charmoso, carismático e bonito. Ele escreve para uma revista masculina como ser o "cara perfeito". Mas para um cara perfeito, precisamos de uma garota perfeita. Conhecemos Amy Elliott Dunne (Rosamund Pike), uma linda escritora de livros infantis, cheia de classe, mas que mantém um senso de humor. Desde criança, Amy foi considerada a garota ideal, a Amazing Amy, título esse que nomeou a personagem de seus livros infantis. No quinto aniversário de casamento dos dois, Amy misteriosamente desaparece. Nós passamos a conhecê-la através de seu diário que está sendo lido para nós ao longo do filme. A mídia representada pelo jornalismo sensacionalista, não apenas suspeita que Nick é o responsável pelo sumiço de sua esposa, mas rapidamente demoniza-o como assassino, sociopata, e um possível praticante de incesto.

    
Um dos muitos méritos de “Garota Exemplar” está na estrutura do roteiro escrito por Flynn, nos intrigando ao oferecer os dois pontos de vista para os acontecimentos da narrativa: o de Nick mostrado durante o dia-a-dia das buscas pela esposa, e o de Amy representado pela narração em off de trechos de seu diário. A narrativa torce e destorce seus protagonistas, fazendo o expectador variar em suas opiniões sobre cada um ao longo do filme. Ora torcemos pela inocência de Nick, ora o chamamos de canalha. Mas vou parar com certos detalhes da trama já que o maior prazer deste filme é descobrir cada reviravolta com olhos desavisados.

Fincher e Flynn, mostram ser uma das melhores duplas de diretor-roteirista em anos. Em um romance policial, estamos acostumados ao tapete sendo puxado debaixo de nós e em Garota Exemplar isso vai além. O resultado é um dos filmes mais surpreendentes do ano passado e Fincher faz questão de chamar a atenção para algumas coisas. Por um lado, ele satiriza o jornalismo que hoje muitas vezes beira ao sensacionalismo. Por outro lado, Fincher e Flynn fazem com que todos sejam suspeitos e que o expectador não consiga desvendar os mistérios facilmente.


O elenco é outro grande mérito do filme. Ben Affleck tem aqui sua melhor performance até agora. Nick Dunne é o papel perfeito pra ele. Sua dificuldade em sorrir naturalmente e sua falta de expressão em alguns momentos são os atributos perfeitos para este personagem. Enquanto Affleck é sutil, Rosamund Pike se entrega de corpo e alma numa personagem vestida por camadas e camadas de mistério. Certamente esse é o papel da carreira de Pike e que a fez ser indicada ao Oscar. Fincher surpreende ao escalar seu elenco de apoio, trazendo nomes famosos da comédia como Tyler Perry e Neil Patrick Harris em atuações super convincentes, além das ótimas Kim Dickens e Carrie Coon e de Patrick Fugit (o eterno garoto de “Quase Famosos”).
   
Em mais uma colaboração com Fincher, o editor Kirk Baxter, o diretor de fotografia Jeff Cronenweth e os compositores Trent Reznor e Atticus Ross fazem dos elementos técnicos outros personagens da trama. A edição é espetacular do primeiro ao último frame e a fotografia exalta todo aquela atmosfera melancólica que circunda os personagens. A trilha de Reznor e Ross complementam o tom crescente de tensão ao utilizar instrumentos diferentes para compor faixas sonoras.
    
No 10º filme de sua carreira, David Fincher atinge o equilíbrio brilhante de encontrar um novo território, mesclando o thriller com o drama e toques de humor ácido. Se sua carreira tem sido uma série de pinceladas que pintam um retrato da alma decadente da sociedade, “Garota Exemplar” é um dos mais audaciosos (e um dos mais divertidos também).


24 de agosto de 2015

Crítica: Adeus, Lenin! (Good Bye Lenin!, 2003)

    

1988. Alemanha Oriental. O jovem Alexander Kerner (Daniel Brühl) participa de uma manifestação quando é agredido pela polícia. Sua mãe, Christiane Kerner (Kathrin Sass), ao ver aquilo, sofre um infarto e entra em coma durante meses. Durante o tempo que ela ficou desacordada, o país passou por mudanças políticas e o Muro de Berlim veio abaixo, marcando então o fim da divisão entre Alemanha Ocidental e Oriental. Christiane, uma grande defensora do Comunismo, acorda de seu coma, mas com a saúde bastante debilitada e o coração fraco. Seu filho Alex é então alertado pelo médico de que qualquer grande emoção ou choque pode ser fatal para o coração de sua mãe. Alex resolve utilizar sua criatividade para esconder da mãe as mudanças e a influência capitalista que atingiu a região oriental do país após a unificação. E para isso ele conta com a ajuda de sua irmã Ariane (Maria Simon ) e seu amigo Denis (Florian Lukas), um aspirante a cineasta.
    
Com essa premissa, “Adeus, Lênin!” (Goodbye, Lenin!)  já revela ao espectador uma história interessante e envolvente ambientada numa época complicada e de transição pela qual a Alemanha passou. Mais que um filme sobre um período histórico e importante, nós assistimos uma história de amor entre mãe e filho, que conta com muita delicadeza a dedicação e o carinho que aquele filho possui para com sua mãe.  O diretor Wolfgang Becker se despe de uma carga excessivamente melodramática para seguir um caminho contrário. Com muita sobriedade, ele aposta numa mistura de drama familiar com toques de humor inteligente para nos contar uma história tão bela e tão rica em reflexões sócio-políticas e ideológicas.
    
Wolfgang faz questão de mostrar ao público o quanto o fim do Comunismo atingiu a população da Alemanha Oriental, que após as transformações no país, via-se uma forma de "mudar de vida" com o fim do regime, mas em meio ao capitalismo e a concorrência com a população da ex-região ocidental, a grande maioria encontrava empregos menores. No filme, vemos a irmã de Alex se tornar uma atendente do Burger King e o próprio Alex como um vendedor de tv a cabo, ressaltando então que o capitalismo chegou imponente por lá, mas desfavoreceu a vida dos habitantes da antiga parte oriental do país.


Entretanto, em meio aos posicionamentos sociais, o diretor nos emociona e ao mesmo tempo nos diverte com as atitudes do jovem Alexander ao tentar esconder da mãe o fim do Comunismo no país. Com a ajuda de seu amigo Denis, Alex cria um telejornal falso que simula os noticiários da época anterior à queda do Muro e explica certos detalhes como o grande banner da Coca-Cola posicionado ao lado da janela do quarto de Christiane.
    
Se o filme já é envolvente pela sua premissa, ele passa a ser mais ainda graças ao excelente elenco encabeçado por Daniel Brühl e Katrin Sass. Brühl e seu exímio talento como ator, nos cativa primorosamente com o seu personagem Alexander e seu amor pela mãe. Katrin Sass interpreta perfeitamente a mãe, Christiane, e nos emociona com uma personagem tão forte e ao mesmo tempo sensível, que defende a todo custo o estilo de vida comunista. Os coadjuvantes Florian Lukas e Maria Simon também demonstram grande competência em cena como personagens essenciais ao plano de Alexander.
    
Além de uma direção bastante competente, o roteiro escrito por Wolfgang Becker em parceria com Bernd Lichtenberg também justifica a excelente qualidade do longa. ”Adeus, Lênin!” concorreu ao Globo de Ouro e ao BAFTA de melhor filme estrangeiro em 2004, além de ter sido premiado no Festival de Berlim e no César Awards. Prêmios mais do que justos para uma obra tão edificante. O cinema alemão é um pólo que sempre traz filmes relevantes e cineastas promissores que não precisam estar em Hollywood para serem apreciados pela comunidade cinéfila. E “Adeus Lênin!” é a soma de todas as melhores qualidades que o cinema germânico tem a oferecer. E acima de tudo, é uma abordagem histórica e reflexiva moldada através de uma bela história sobre a relação entre mãe e filho.
    

19 de agosto de 2015

Crítica: Trainspotting - Sem Limites (Trainspotting, 1996)



“Escolha viver. Escolha um emprego. Escolha uma carreira, uma família. Escolha uma televisão enorme. Escolha lavadora, carro, CD Player e abridor de latas elétrico. Escolha saúde, colesterol baixo e plano dentário. Escolha viver. Mas por que eu iria querer isso? Escolhi não viver. Escolhi outra coisa. Os motivos? Não há motivos. Quem precisa de motivos quando tem heroína?”.  É com esta frase marcante que inicia-se um dos filmes mais cultuados do cinema alternativo. Em 1996, o britânico Danny Boyle ousou lançar aquele que se tornaria o filme mais lembrado de sua carreira. “Trainspotting” é baseado no livro homônimo escrito por Irvine Welsh e conta as desventuras de Mark Renton (Ewan McGregor), um jovem do subúrbio de Edimburgo viciado em heroína que junto com seus amigos também viciados, se envolvem em golpes a traficantes.
    
Costurado por um roteiro ácido cheio de diálogos rápidos, Trainspotting passeia pelo cotidiano de um viciado, mostrando a fugacidade das consequências geradas por esse estilo de vida. Mas Danny Boyle não está disposto a julgar o uso de entorpecentes através de um “panfletarismo” careta e muito menos de fazer apologia às drogas. A proposta dele é mostrar um comportamento comum da “geração pub” dos anos 90 que ao negar uma vida hipócrita, certinha e pré-programada, decidia viver contra às regras. O discurso crítico e até niilista do protagonista Renton na cena inicial do longa, reflete o que movia muitos jovens dessa época. Escolher “não viver” ao invés de uma carreira ou uma vida normal fazia-os acreditar que estavam dentro de uma filosofia nova e libertadora, onde não há motivos para nada, apenas a maior curtição do mundo: a heroína. A heroína representava não um subterfúgio para os problemas da vida, mas sim a libertação dentro de uma sociedade de consumo.


Ao filmar de maneira deselegante e aleatória as desventuras de Renton e seus amigos Spud, Sick Boy, Tommy e Begbie, Danny Boyle opta por um jogo rápido de planos que casa perfeitamente com o estilo de vida destes personagens. Sem se preocupar com um estilo rebuscado visualmente falando, o diretor investe em simbologias interessantíssimas no decorrer de seus 94 minutos de longa. Simbologias que estão em cenas memoráveis como a cena do banheiro público onde Renton mergulha em uma privada para não perder seus supositórios de heroína e que podemos interpretar como a entrada numa vida onde só encontra-se merda; e a cena onde o mesmo após sofrer uma overdose, alucina estar afundando em um tapete como se estivesse entrando num caixão.
    
No seu primeiro papel de destaque no cinema, Ewan McGregor está espetacular, me arrisco até a dizer que esta é uma das suas maiores performances. Seus coadjuvantes também não ficam para trás. Jonny Lee Miller na pele de Sick Boy, Ewen Bremner como Spud e Robert Carlyle como Begbie se destacam como estes personagens divertidos e ao mesmo tempo desagradáveis. Personagens que mesmo vivendo em camaradagem, não hesitam em enganar uns aos outros.

E em meio às alucinações, à crítica impiedosa presente no roteiro e à quebra de linearidade no tempo, Trainspotting só podia ter uma trilha sonora que combinasse perfeitamente com a rotina de Renton e sua trupe. Nomes como Lou Reed, Iggy Pop e Underworld embalam esse longa mais que desenfreado. 
    
Sem qualquer preocupação em nos fazer chocar, Danny Boyle estampa na nossa cara o sentimento de auto- suficiência provocado por uma vida regada a entorpecentes que fazem estes personagens criticarem a sociedade de consumo. Mas quem foi disse que as drogas não são também subprodutos de uma sociedade de consumo?


13 de agosto de 2015

Crítica: Planeta dos Macacos - O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes, 2014)

    
   
    Há um pouco mais de 50 anos atrás, o escritor Pierre Boulle trouxe ao mundo uma das obras que mais influenciou o universo da ficção-científica e da cultura pop. Seu livro inspirou o cineasta Franklin J. Schaffner a lançar em 1968 o clássico “O Planeta dos Macacos” estrelado por Charlton Heston e que entrou para a história do cinema . A partir de então, a franquia estendeu-se para variados rumos na tv e no cinema trazendo em 2011 o ótimo reboot “Planeta dos Macacos: A Origem” nas mãos de Rupert Wyatt. Fazer uma sequência com a mesma qualidade do seu antecessor foi um grande desafio para o diretor Matt Reeves, mas que felizmente ele conseguiu superar em todas as proporções. “Planeta dos Macacos: O Confronto” (Dawn of the Planet of the Apes) não é apenas um excelente blockbuster, mas um filme que carrega questionamentos impactantes acerca da natureza humana que reside não apenas em nós, homo sapiens, mas também em nossos primos, os símios. Mais sombrio e maduro, o novo longa consegue criar uma tensão crescente ao espectador.
    Na trama, a população humana foi quase dizimada pelo vírus da gripe símia criado em laboratório 10 anos antes, restando apenas alguns sobreviventes em meio a um cenário pós-apocalíptico nas grandes metrópoles como São Francisco. Contudo, na imensa floresta, os macacos liderados por Cesar procuram construir sua própria sociedade baseada na paz e sabedoria. Quando um grupo de humanos adentra o território dos símios para tentar reativar uma usina hidroelétrica, o estopim para um tenso e violento conflito entre as duas espécies é iniciado.


    Se no primeiro filme o foco principal é abordar a forma como os macacos adquiriram a sapiência elevada, em O Confronto nos deparamos com um belíssimo primeiro ato onde Matt Reeves aprofunda a humanização e a organização social dos símios. A fotografia exuberante das tomadas iniciais na floresta enriquece o grau de realidade ao longa, tornando aquele território belamente palpável.  Mas o foco principal está no desenvolvimento comportamental entre seres de uma mesma espécie. E este desenvolvimento está retratado nas figuras de Cesar e Koba. Enquanto Cesar conheceu amor e carinho com os humanos, Koba conheceu a dor, o sofrimento e a ganância. E isto é refletido na personalidade de cada um deles, principalmente quando eles voltam a ter contato com os humanos. Em Cesar reside a compreensão fazendo-o enxergar a bondade, principalmente em Malcolm (interpretado por Jason Clarke), entretanto, em Koba há apenas o crescimento do ódio. No grupo dos humanos há também o seu representante antagônico, que ao sentir repúdio dos macacos pela desolação em que a humanidade se encontra, reflete o enorme grau de ignorância do personagem. Paz x Ódio. Tolerância x Preconceito. Dois contrapontos brilhantemente explorados pelo roteiro.
    Mas não é apenas o bom roteiro que engrandece a dualidade vista nas figuras de Cesar e Koba. Além, é claro, dos efeitos visuais impecáveis, a performance do elenco empregada pela captura de movimentos trouxe neste filme um nível absurdamente realista. Andy Serkis, brilhante e excepcional como sempre, confere à Cesar a complexidade que o personagem merece (os planos inicial e final focados em seu olhar foi uma opção genial do diretor). Ressalto o mesmo para Toby Kebbell, que se entrega completamente na pele de Koba. O elenco dos personagens humanos encabeçado por Jason Clarke, Keri Russel e Gary Oldman acaba sendo ofuscado por todo o elenco dos personagens símios, que além dos já mencionados Serkis e Kebbell, há também Nick Thurston como o filho de Cesar, Olhos Azuis e a atriz Karin Konoval que interpreta o dócil orangotango Maurice.
    Se nos dois primeiros atos do longa há um extenso espaço para diálogos expositivos (e a excelente demonstração da comunicação através de sinais feita pelos símios), no terceiro ato vemos cenas de ação, todas perfeitamente coreografadas em planos elegantes, justificando a eficiente direção de Matt Reeves.
    Planeta dos Macacos: O Confronto dialoga com a nossa história, a história da humanidade e a construção de todas as civilizações ocidentais e orientais. Toda sociedade em construção por mais sábia que seja e mesmo com as tentativas de paz, não consegue se distanciar dos conflitos e das guerras. Como disse o filósofo Thomas Hobbes: “O homem é o lobo do homem”. E essa teoria associa-se perfeitamente às duas civilizações do filme. César sabe disso e o plano final nos confirma o que estar por vir no próximo filme.


2 de agosto de 2015

Crítica: O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel, 2014)


     Não é sempre que vemos uma comédia aventuresca ser cuidadosamente desenvolvida através de um roteiro inteligente e bem amarrado. Em seu mais novo e elegante trabalho, Wes Anderson prova ser um dos cineastas mais peculiares e originais dessa geração. “O Grande Hotel Budapeste ” é, sem dúvida, uma das obras mais agradáveis lançadas em 2014 e visualmente um deleite para nossos olhos. Inspirado nos trabalhos de Stefan Zweig e com roteiro assinado pelo próprio Anderson, o filme nos conta a história de Monsieur Gustave (Ralph Fiennes), um famoso concierge do luxuoso hotel localizado no país fictício de Zubrowka que tem como seu protegido o jovem Zero (Tony Revolori), o novo Lobby Boy do hotel. Juntos, em meio a um período de guerra, os dois se envolvem numa intriga familiar, fazendo com que Gustave seja acusado de um homicídio e do roubo de um famoso quadro renascentista.
    Recheado de personagens divertidos que muitas vezes aparentam ser irreais, o filme propõe ao seu expectador uma história que poderia perfeitamente ter saído de um conto de aventuras. Ao assistirmos cada interação do protagonista com os demais personagens do enredo dentro de um cenário multicolorido, nós conseguimos perceber uma deliciosa fábula sendo construída diante de nossa vista. Wes Anderson nos instiga para uma diversão incomum, onde cada participante representa uma estranha caricatura que só ele mesmo sabe fazer (e muito bem). Temos um herói injustiçado, um vilão sem escrúpulos, um casal de apaixonados. Todos eles moldados por uma narrativa contagiante e com uma boa e chamativa dose de humor adulto e inteligente. Vale lembrar que em seus dois trabalhos anteriores, “O Fantástico Sr. Raposo” (2009) e “Moonrise Kingdom” (2012), Anderson bebeu da mesma fonte fabulesca (que parece estar em seu íntimo) para criar histórias distintas e tão adoráveis quanto a construída em O Grande Hotel Budapeste.
    E para uma narrativa tão peculiar, ele adotou um recurso bastante lúdico para o desenvolvimento da história. Com uma divisão em capítulos como se fosse um livro sendo contado, o longa passeia por cada etapa e obstáculo vivido por Gustave, como sua estadia na prisão, a perseguição do vilão Jopling (um inusitado Willem Dafoe) e a ajuda de personagens secundários vividos por Bill Murray, Owen Wilson e outras divertidas participações.

    Outros fatores que tornam o filme mais lúdico é a deliciosa trilha sonora composta por Alexandre Desplat (um parceiro corriqueiro de Anderson nos últimos anos) e a famosa paleta de cores sempre utilizada pelo diretor em sua filmografia. Desde o cenário até ao figurino, o uso proposital de tons pasteis misturados às cores mais vivas enaltece a influência de Anderson na construção de todo o design de produção do longa. Uma característica curiosa é a mudança de razão de aspecto em tempos distintos da narrativa. Nas cenas protagonizadas por Jude Law e F. Murray Abraham com suas conversas para relembrar o passado do hotel, opta-se pelo Scope. Entretanto, na maior parte estamos assistindo a jornada de Gustave e seu ajudante Zero (Tony Revolori) em razão de aspecto de 4:3, uma característica singular que não vemos com tanta frequência no cinema atual.
    Ralph Fiennes mostra que possui um lado cômico dentro de si e constrói trejeitos comportamentais tornando Gustave um protagonista a ser adorado pelo público e claro, adorado também por ser o maior amigo e mentor do jovem Zero. Este, interpretado por Tony Revolori protagoniza ao lado de Saoirse Ronan o casal de heróis e literalmente os salvadores da grande intriga policial desencadeada pelo vilão. É impossível citar todas as participações inclusas num elenco tão memorável em que vemos nomes como Tilda Swinton, Edward Norton, Adrien Brody e Harvey Keitel.
    Com uma imaginação fértil, Wes Anderson está sempre recriando novas maneiras de nos contar fábulas para adultos costuradas por excelentes roteiros que por vezes estão cheios de sátiras e um humor único. E “O Grande Hotel Budapeste” é o filme mais "andersoniano" do cineasta. O filme que mais possui as melhores características do cinema tão rico e inventivo dele. Considero este filme a obra-prima de Wes Anderson, um verdadeiro presente para os cinéfilos com uma combinação perfeita de versatilidade e elegância.

1 de agosto de 2015

Crítica: True Detective - 1ª Temporada (2014)



     Séries e filmes produzidos pela HBO quase sempre são um deleite para nossos olhos. O alto padrão televisivo (que mais parece cinema) é uma marca registrada por este que é um dos canais VIP da tv americana. Este nível de qualidade nós podemos enxergar em diversas séries como a atual Game of Thrones. E em 2014, surgiu esta que é uma série que já a partir de seu primeiro episódio confirma que veremos mais uma grande e maravilhosa produção da Home Box Office.
    Escrita pelo iniciante roteirista Nic Pizzolatto, True Detective deixa claro que desde o início o foco principal são seus personagens, em especial a dupla protagonista, fazendo com que o enredo e a narrativa sirvam como um brilhante guia para nos aprofundarmos na psiqué e nos conflitos destes personagens.
    Preciso avisar que não pretendo revelar muitos detalhes da série, uma vez que isso estragaria a experiência para quem ainda não a assistiu. Portanto, se você está lendo este texto sem ter visto a série, não se preocupe, pois você não encontrará spoilers importantes que comprometerão os mistérios do enredo.
    True Detective é essencialmente uma série antológica. Sua primeira temporada tem início e desfecho próprio com personagens próprios e isso é algo fascinante na narrativa escrita por Pizzolatto. Ele nos apresenta uma trama composta de duas linhas temporais, mas que paralelamente estão inter-relacionadas. No ano de 2012, vemos os detetives Marty Hart (Woody Harrelson) e Rust Cohle (Matthew McConaughey) sendo interrogados por um assassinato polêmico que aconteceu 17 anos antes no interior da Louisiana. Através de flashbacks, voltamos ao ano de 1995 e assistimos a dupla tentar solucionar o maior e mais sinistro caso da carreira deles.



   A premissa citada acima pode aparentar ser simples, mas True Detective desenvolve ao longo de seus 8 episódios uma das tramas mais originais já produzidas que foge dos típicos clichês que vemos em muitas séries investigativas por aí. Com questionamentos existenciais e filosóficos e ecos de uma influência de contos de terror e fantasia, a série leva o expectador a um estado hipnótico. Termina um episódio e você já quer de imediato assistir ao próximo. É surreal o poder que a narrativa de Pizzolatto têm sob a mente do expectador, e ele faz isso sem o propósito de subestimar ninguém.
    Nos primeiros episódios, vemos os dois protagonistas se conhecer e formar uma dupla que tem tudo para não lograr êxito em sua missão. Rust e Marty são completamente diferentes um do outro. Uma diferença abissal! Enquanto Marty é um típico policial que trabalha pela família e gosta de levar uma vida normal, Rust é a pessoa mais pessimista que existe na face da Terra. Ele escolheu uma vida solitária por motivos sutilmente revelados à medida que entendemos o personagem. Seus estranhos comentários filosóficos (e até niilistas) levam às questões fundamentais para a trama, afinal, há Luz e Escuridão em tudo que existe nesse vasto mundo. (E por que não haveria em cada um de nós também?!). O caso que eles precisam desvendar traz à tona as complexidades que Rust e Marty possuem. À medida que a série avança somos apresentados à camadas e mais camadas que vestem cada um deles. E com isso, nós, expectadores, nos tornamos tão obcecados quanto eles.


    Para interpretar personagens tão obscuros, apenas atores de exímia competência poderiam dar conta deles. E Matthew McConaughey e Woody Harrelson dão um show de atuação! Matthew que ganhou um Oscar por “Clube de Compras Dallas”, consegue em True Detective uma performance assustadoramente incrível (que deu a ele a indicação ao Emmy) e a maquiagem usada nas cenas do ano de 2012 exalta o quanto seu personagem está devastado. Mas Woody Harrelson não fica para trás. Ele esbanja em cena uma performance que revela tão bem as nuances que caracterizam Marty nas duas linhas temporais da história. E mesmo com poucas personagens femininas, estas se destacam, principalmente Maggie, esposa de Marty (interpretada pela talentosa Michelle Monaghan).
    A direção de Cary Fukunaga é um show à parte. Responsável pelos 8 episódios da temporada, Fukunaga cria aqui uma qualidade linear em sua forma de dirigir. Todos os episódios são belamente filmados e orquestrados por ele. Ressalto aqui a incrível cena de 6 minutos filmada em plano-sequência que fecha o episódio 04 e deixa qualquer um completamente sem fôlego. É cinema de qualidade, e não tv! A fotografia e trilha sonora exuberantes transformam o cenário em mais um personagem. A desolação da Louisiana pré e pós-Katrina são o palco perfeito para essa história.
    Quero fazer aqui uma menção honrosa à belíssima abertura da série que ao som da música ‘Far fom any road’ da banda The Handsome Family já é uma das aberturas mais perfeitas das séries televisivas. Aliás, a trilha sonora inteira da série só acrescenta mais qualidade para True Detective, com músicas que casam muito bem com a melancolia e obscuridade dessa série.
    O fim dessa temporada foi algo comentado em todos os lugares. Minha opinião sobre ele é  que em vez de criar um desfecho mirabolante, Pizzolatto optou por algo mais simples que explicou de uma forma sóbria (mas emocionante) os conflitos de seus protagonistas.
   Depois de uma excelente primeira temporada, True Detective foi considerada a melhor nova série de 2014. Este ano está vindo a segunda com uma nova história e um novo elenco. 
    
   E você...já foi à Carcosa?

31 de julho de 2015

Crítica: Bling Ring - A Gangue de Hollywood (The Bling Ring, 2013)


    Chanel, Balmain, Miu Miu. Paris Hilton, Lindsay Lohan, Miranda Kerr.  Esses são alguns dos nomes citados em várias cenas  de "Bling Ring – A Gangue de Hollywood”, o mais recente filme da cineasta Sofia Coppola.
    Baseado no artigo “The Suspects Wore Louboutins” escrito pela jornalista Nancy Jo Sales e publicado na revista Vanity Fair, “The Bling Ring” traz à tona todo o universo da futilidade exacerbada que fascina muitos jovens. O filme é inspirado em fatos reais e conta a história de um grupo de adolescentes de Los Angeles que invadiam as casas de vários famosos de Hollywood, roubavam deles roupas, acessórios, jóias e dinheiro e saíam por aí ostentando os seus “ganhos” e publicando fotos em redes sociais. E detalhe: esses adolescentes vinham de famílias com perfeitas condições financeiras.
    O filme tem início com trechos da entrevista de Marc (interpretado por Israel Broussard) e Nicki (vivida por Emma Watson) respondendo perguntas à fotógrafos e jornalistas e em poucos minutos voltamos um ano antes para conhecermos os fatos ocorridos. Marc acaba de entrar numa nova escola e por não se achar atraente, ele não consegue se enturmar facilmente. É então que aparece Rebecca (Katie Chang) que logo fica amiga dele e mostra os seus pequenos “dons” em furtar objetos e dinheiro em carros alheios. Marc passa a ajudá-la nos furtos e conhece outras garotas: Chloe (Claire Julien), Nicki (Emma Watson) e Sam (Taissa Farmiga). Do furto em carros elas passam a invadir casas, principalmente, casas de celebridades. Entre as vítimas estão a socialite Paris Hilton, a atriz Lindsay Lohan e o casal Orlando Bloom e Miranda Kerr.
    A diretora Sofia Coppola explora o fascínio que grande parte da juventude nutre pelo “lifestyle of rich and famous” e faz uma ode à ostentação. Porém, dentro dessa temática está a simples, mas profunda, crítica ao culto desse estilo de vida . O sentimento de que são invencíveis e inatingíveis estão presentes nesses personagens. Rebecca, Marc, Nicki, Sam e Chloe não se cansam em roubar as roupas de grife e joias de seus ídolos até o momento em que são descobertos pela polícia e pela mídia.
    Para dar um tom mais real e até documental ao filme, o roteiro utiliza uma linguagem simples e até próxima dos jovens, mas também utiliza expressões comuns usadas por garotas fúteis que apenas valorizam grifes famosas.


    Se em “As Virgens Suicidas” Sofia mostra pais opressores, em “The Bling Ring” ela traz pais ausentes e uma mãe superficial, que não procuram saber o que os filhos fazem fora de casa e acreditam em tudo o que eles dizem.
    O vazio existencial é um tema recorrente na filmografia de Sofia Coppola, mas ela nunca repete esse sentimento da mesma forma. Basta lembrar de seus filmes anteriores e enxergar isso através de seus personagens. As irmãs em “As Virgens Suicidas” cansadas da educação repressora que recebem; o personagem de Bill Murray em “Encontros e Desencontros” e o de Stephen Dorff em “Um Lugar Qualquer”, ambos cansados da fama. Mas esse vazio existencial ela também retrata no exagero do luxo como vemos em “Maria Antonieta” e agora em “The Bling Ring”.
    As performances dos cinco jovens atores estão bastante satisfatórias e eles  conseguem de maneira realista interpretar esses “ladrões de famosos”. O iniciante ator Israel Broussard é um dos que mais se destacam e seu personagem (Marc) é o mais interessante da história, talvez por ele se o mais puro e por ter sido corrompido pela sua melhor amiga e por ser o único que não demonstra falsidade no grupo. Ele demonstra gostar realmente de suas amigas. As garotas além de falsas, são extremamente cínicas, principalmente Rebecca e Nicki. Esta que vem a público afirmar que o escândalo dos roubos serviu para fazê-la crescer como pessoa e desejar um dia ser a líder de um país. Emma Watson encarna muito bem essa personagem cínica (e muito sensual) que nem parece a certinha Hermione da saga “Harry Potter”. Ela não é a líder da “gangue”, mas se torna a coadjuvante de maior destaque.
    A ótima trilha sonora é recheada de hip-hop (com nome  como Kanye West e M.I.A.) e músicas da banda indie pop Phoenix. Uma das músicas (Bad Girls da M.I.A) que a personagem Chloe canta e acompanha no rádio diz as seguintes palavras: “Live fast, die young. Bad girls do it well”. Um pequeno detalhe muito bem pensado por Sofia. 
    “The Bling Ring" não é o melhor filme de Sofia Coppola pelo fato da temática ser menos complexa em comparação com seus filmes anteriores, mas vale a pena assisti-lo.
    Um mundo onde a fama é mais importante que o caráter e onde muitas famílias não impõem limites a seus filhos, Sofia põe em questão: até onde isso pode interferir no comportamento dos adolescentes?
    E se no decorrer do filme via-se sutilmente uma crítica social, no fim ela é estampada na sua cara quando o personagem Marc diz à entrevistadora:  “É incômodo que tantos me adorem por algo tão odiado pela sociedade. Se fosse por algo que beneficiasse a comunidade ou algo parecido, eu adoraria. Mas isso demonstra que a América tem um fascínio mórbido pela coisa de Bonnie e Clyde.”  Essa definitivamente é uma verdade que precisamos ouvir.

30 de julho de 2015

Crítica: Nebraska (2013)


    Se existe um diretor que sabe tratar de assuntos comuns de forma tão extraordinária, este é Alexander Payne. Com uma lista ainda pequena de longas-metragens (mas, há vários anos na estrada cinematográfica), Payne possui uma visão intimista e ao mesmo tempo complexa sobre temas inerentes à vida. Casamento, família, cumplicidade, envelhecimento. Tudo isso é aproximado ao máximo para a vida real nas mãos desse brilhante cineasta.
    Em “Nebraska”, o veterano Bruce Dern encarna Woody Grant, um homem idoso que sofre de problemas de memória e acredita ter ganhado 1 milhão de dólares ao receber uma carta lhe informando sobre o prêmio. A sua maior vontade é ir até a cidade de Lincoln no estado de Nebraska, a fim de trocar a carta pelo prêmio e para isso ele ganha a companhia de seu filho David (interpretado por Will Forte) na viagem até o destino desejado.  Contudo, essa não é apenas uma simples viagem, mas uma verdadeira jornada de conhecimento recíproco entre pai e filho. David nunca esteve tão próximo do pai e essa inesperada aproximação trouxe à tona novas descobertas sobre o passado daquele que cuidou (ou deixou de cuidar) da esposa e dos filhos. A visão que temos de Woody, é que ele nunca foi um pai e marido perfeitos. Seus problemas com alcoolismo no passado justificam o cansaço sentido pela sua esposa, Kate (interpretada pela excelente e cativante June Squibb), em aturar a semi-demência do marido.
    Assim como em “Sideways”(2004), Alexander Payne repete aqui a narrativa do bom e velho road movie. Nós, espectadores, seguimos viagem com aqueles personagens e nos vemos tão próximos deles a ponto de sentirmos identificação com os mesmos. A vida pacata da família Grant é semelhante à  de muitas famílias mundo afora. E é por isso que Nebraska se destaca ao contar uma história de gente como a gente.  De pessoas de carne e osso que não vivem uma história idealizada e cheia de clichês melodramáticos.
    O ótimo roteiro escrito por Bob Nelson possui uma linguagem simples e levemente cômica, traçando um paralelo entre a importância da cumplicidade em família com os prejuízos causados pela crise americana de 2008. Muitos americanos de classe média veem-se até hoje afetados pela crise econômica, especialmente os moradores daquela região mostrada no filme. Há cenas que evidenciam as tentativas de alguns personagens em sair da crise. Ao descobrir que Woody está “milionário”, vários familiares tentam se aproveitar pedindo dinheiro ou cobrando dívidas há muito esquecidas. O mesmo vale para o antigo amigo e sócio, Ed Pegram (Stacy Keach), outro que tenta tirar proveito da situação de Woody. Quando citei a cumplicidade familiar, quis dizer que mesmo com as diferenças vividas nas relações marido/esposa e pai/filho, estes se unem para defender uns aos outros.


     Sem dúvida, uma das características mais chamativas do filme é sua bela fotografia em preto em branco. O trabalho exemplar de Phedon Papamichael transforma a fotografia e o cenário em personagens.  A preocupação do diretor de fotografia  e do próprio Alexander Payne  é mostrar os problemas daquele microcosmo familiar usando a falta de cores como uma das ferramentas. A realidade é, antes de tudo, crua e não possui cor. O uso do preto e branco foi uma escolha acertada. O mesmo vale para a ótima trilha sonora embalada por um country melancólico composto por Mark Orton.
    Outra escolha mais que acertada em “Nebraska”, é o seu competente elenco. Bruce Dern, que foi premiado em Cannes e indicado ao Oscar por esse filme, apresenta uma performance brilhante que marca o seu retorno como um grande protagonista. Ele demonstra em Woody a fragilidade da velhice e ao mesmo tempo  a determinação  de seguir adiante. June Squibb (também indicada ao Oscar) é encantadora e cativante e protagoniza as cenas mais hilárias do longa. A grata surpresa do filme foi assistir Will Forte num papel sensível e melancólico. Ele que é famoso por ser comediante do Saturday Night Live, consegue com muita ternura e competência interpretar o filho David. Este, que vê a importância de cuidar e passar mais tempo com seu pai, mas que também teme em ter um futuro semelhante ao dele.
    Preciso confessar que este foi um dos filmes de 2013 que mais tocou o meu coração. Me fez refletir profundamente sobre o que de fato importa na vida familiar e na convivência com aqueles que nos criaram e nos formaram como pessoa.
    Mais que uma celebração à família, “Nebraska” é um conto que expõe de forma simples e realista, uma América sem esperanças  e o filme configura-se como um dos road movies mais cativantes dos últimos anos.

29 de julho de 2015

Crítica: Ela (Her, 2013)


    A tecnologia já se tornou algo inerente ao mundo em que vivemos. Desde a Revolução Industrial e principalmente com a Revolução Técnico-Científica, os avanços tecnológicos passaram a fazer parte da rotina de nossas vidas. Mas será que hoje essa tecnologia tem grande influência sobre nossos relacionamentos ou isso é apenas coisa para se pensar em um futuro não muito distante? Para mim ela já está difundida em nosso meio, afinal, vivemos na era das redes sociais. Mas, em “Ela” (Her, 2013), o mais recente filme do cultuado diretor e roteirista Spike Jonze, essa influência tecnológica atinge proporções maiores e por incrível que pareça de uma forma bem profunda.
    Num futuro não determinado, Spike Jonze nos apresenta uma Los Angeles onde a tecnologia está em toda parte. E é nesta futura Los Angeles onde vive Theodore (Joaquin Phoenix), um homem melancólico e recém-separado daquela que ele imaginava ser a mulher de sua vida, Catherine (Rooney Mara). Mesmo com amigos ao seu redor, Theodore sente um vazio interno, a falta de alguém com quem possa compartilhar o amor. Contudo, as coisas mudam quando ele adquire uma novidade tecnológica criada para preencher esse vazio existencial. Trata-se de um sistema operacional inteligente capaz de se socializar com seu dono. E o SO de Theodore possui um nome e uma voz feminina: Samantha (voz de Scarlett Johansson). Aos poucos a relação dos dois cresce de forma gradual e sensível a ponto de florescer um amor entre eles.
    Através de um roteiro escrito por ele próprio, Spike Jonze nos permite conhecer uma história de amor fora dos padrões convencionais. O romance entre Theodore e Samantha é desenvolvido sutilmente com uma originalidade tão palpável, que nos faz acreditar que o futuro possa de fato, ser daquele jeito. Em “Ela”, Jonze põe em questão: Será que um Sistema Operacional com todo o seu intelecto virtual pode ter sentimentos reais? Pode se apoderar desses sentimentos e construir uma personalidade própria? Samantha é a prova de que naquele universo melancólico, uma inteligência artificial dentro de um computador consegue ser mais humano que muitas pessoas de carne e osso. Ela ri com naturalidade, suspira, percebe quando alguém está triste. E todo o mérito da personagem está no trabalho de voz realizado por Scarlett Johansson. Ao emprestar sua voz ao Sistema Operacional, Scarlett nos convence que Samantha possui alma e que o desenvolvimento da personagem é orgânico e real. 


    Outro ponto forte do filme é a performance brilhante de Joaquin Phoenix. Depois de seu trabalho anterior vivendo um intenso personagem em “O Mestre” de Paul Thomas Anderson, em “Ela” Phoenix incorpora um Theodore melancolicamente fofo, mas complexo ao mesmo tempo. O personagem autoanalisa seu caráter e personalidade justificando que nós somos aquilo que construímos dentro de nossos relacionamentos afetivos e sociais, sejam num casamento ou em um namoro não convencional.
    Os coadjuvantes do filme também estão bastante competentes em suas participações: Amy Adams e Chris Pratt como os amigos essenciais à vida de Theodore; Rooney Mara como a ex-esposa  Catherine; e Olivia Wilde como uma mulher que tem um encontro romântico com Theodore. Vale lembrar as inusitadas participações de Kristen Wiig e do próprio diretor Spike Jonze emprestando suas vozes à SexyKitten e ao pequeno alien do videogame de Theodore respectivamente.
    A fotografia assinada por Hoyte Van Hoytema  é de encher os olhos de tão bonita. O uso de cores neutras com tons de rosa e vermelho entra em sintonia com o desenvolvimento das relações vividas por Theodore. A trilha sonora original composta pela banda indie Arcade Fire (da qual sou fã) é suave e  tornando o filme mais agradável e sensível do que já é. E o que dizer da linda música “The Moon Song” composta por Karen O. e Spike Jonze?! A cena do dueto entre Samantha e Theodore cantando essa música é um dos momentos mais sentimentais do filme.
    E sentimento é o que não falta em “Ela”. Desde o seu interessante roteiro às performances de seu elenco, Spike Jonze nos presenteia com um longa que traz emoções e ao mesmo tempo questionamentos sociais. Com cinco indicações ao Oscar 2014 (melhor filme, roteiro original canção original, trilha sonora original e design de produção) , “Ela” já nasceu com potencial para ser um futuro clássico cult.
    E parafraseando a personagem de Amy Adams: “Apaixonar-se é uma forma de insanidade socialmente aceitável”.  Existe algo mais verdadeiro que isso?  Seja no presente ou no futuro, o amor é igual nas suas diferentes formas. Até mesmo o amor por uma inteligência artificial. Mas Samantha não é artificial. Samantha é naturalmente real.

Crítica: Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are, 2009)


 
    
    Um projeto que retrata os anseios infantis de uma maneira peculiar e que exige um certo grau de sensibilidade aguçada de seu expectador, certamente é um trunfo na carreira de um cineasta. Em 2009, o diretor Spike Jonze adaptou para as telonas o livro infantil Onde Vivem os Monstros escrito por Maurice Sendak. O livro voltado exclusivamente para as crianças, possui muitas ilustrações e pouco texto. Entretanto, Jonze (com a benção do próprio Maurice), criou em seu filme um roteiro complexo e cheio de nuances sobre essa fase da vida e seus conflitos.
    Em Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are), conhecemos Max, um garoto solitário, com uma imaginação fértil e dono de uma pequena rebeldia por não se sentir o centro das atenções em sua família. Chateado com sua irmã mais velha e com a presença do namorado de sua mãe, Max veste sua fantasia de lobo e foge para um universo próprio habitado por criaturas selvagens. Lá ele é coroado rei e promete afastar toda a tristeza que possa afligir seus novos amigos.
    No decorrer da narrativa, percebemos a pureza que existe no escapismo imaginativo de uma criança. O seu mundo de monstros serve perfeitamente como um lugar onde ele se sente protegido. Mas também, um lugar onde ele finalmente se torna o centro das atenções, afinal, agora ele é o rei das criaturas selvagens. Mesmo em meio a um tom onírico, Jonze nos mostra uma verdadeira jornada de amadurecimento pela qual Max percorre. Aos poucos, o garoto percebe o quanto é difícil manter a união na sua pequena sociedade de monstros e ao mesmo tempo vai descobrindo a importância que essa experiência trouxe para enfim voltar para casa. Cada uma das criaturas é uma parte de Max, cada uma representa os sentimentos intrínsecos que moram na psique infantil.

    A transição do mundo real para o mundo fantasioso é feita de forma bastante orgânica, passando do uso da câmera na mão enquanto acompanhamos o garoto enfurecido e triste dentro de casa para uma fotografia exuberante naquele mundo exótico e cheio de seres animalescos. (Jonze optou pela fidelidade às ilustrações presentes no livro escrito por Sendak). Aliás, o uso de bonecos em vez de computação gráfica, conferiu uma maior realidade à imaginação do pequeno Max, fazendo com que o expectador se sentisse mais próximo da relação construída entre o garoto e seus novos amigos. E quando vemos a relação entre o garoto e o monstro Carol, percebemos o quanto os dois são parecidos quando se trata de raiva e abandono.
    Spike Jonze fez questão de criar pequenas e delicadas cenas em que uma epifania vem à mente do garoto. Como a cena onde Max está escondido dentro da criatura KW e a partir daí vemos um maior amadurecimento nas atitudes infantis dele. Momento este que firma sua decisão de voltar pra casa e finalmente entender os sentimentos de sua mãe.
    O cenário lúdico e fantasioso enaltecido pela bela fotografia soma-se à doce trilha sonora composta por Carter Burwell em parceria com a cantora Karen O. para ampliar a essência da infância tão brilhantemente retratada no longa. A essência da fase mais importante da vida. A essência da construção da nossa personalidade. Afinal, ser criança é deixar sua imaginação fluir e descobrir os pequenos monstros essenciais que vivem dentro de nós.

28 de julho de 2015

Crítica: A Caça (Jagten, 2012)


    O cinema europeu sempre consegue contar uma boa história sobre temas polêmicos e delicados, coisa que poucas vezes vemos Hollywood fazer.
    O drama “A Caça” (Jagten no título original), dirigido pelo dinamarquês Thomas Vinterberg, é um desses filmes que mexem com nossos sentimentos, nos colocando ao mesmo tempo em lados opostos da mesma moeda. Confesso que nunca me senti tão angustiada vendo um caso de injustiça sofrida por um personagem e você não poder fazer nada para ajudá-lo. Esse é o grande trunfo trazido por Vinterberg: saber a verdade da inocência de um personagem, se importar imensamente por ele a ponto de querer entrar no filme e ajudar a resolver a situação.
    Mas vamos aos fatos. A história do filme se passa numa pequena comunidade onde mora Lucas, um professor de uma creche e que se dá bem com todo mundo, é rodeado de amigos e sua gentileza é visível a partir da primeira cena. Ele acaba de passar por um divórcio e quer que seu filho venha morar com ele.  Contudo, ele é acusado de um crime terrível: pedofilia. A pequena Klara, filha de seu melhor amigo e aluna da creche, conta à diretora que Lucas mostrou suas partes intimas à ela. Achando difícil uma criança inventar algo desse tipo, a diretora passa a acreditar que Lucas é um pedófilo e é a partir daí que se desencadeia uma acusação contra ele e que manchará sua reputação perante à comunidade.
    Nós, espectadores, sabemos desde o início que Lucas é inocente. Sabemos que ele nunca cometeu nenhum tipo de abuso sexual contra uma criança. Mas o filme tem o objetivo de nos mostrar os dois lados da história: o acusado inocente e os acusadores. A caça e os caçadores.


    É compreensível a atitude daquela comunidade ao se revoltar com o suposto crime. Coloque-se na pele dos pais da garotinha. Dificilmente você acharia que ela estivesse mentindo. Vinterberg mostra de uma forma sutil, mas ao mesmo tempo tensa, o desenvolvimento da injusta decadência moral do protagonista. O ator Mads Mikkelsen está formidável como Lucas, mesclando seus momentos de sofrimento com seus momentos de revolta de uma forma intensa e memorável. São angustiantes as cenas onde vemos ele ter que lidar com aquela complicada situação a sua volta. A pequena Annika Wedderkopp, intérprete da garotinha Klara, também está brilhante. Ela consegue passar a infantil interpretação dos fatos que foram consequências de sua mentira. Crianças não conseguem medir o peso de suas palavras e no filme isso gerou uma situação desastrosa.
    A direção e o roteiro de Thomas Vinterberg estão impecáveis. Mesmo com diálogos diretos e concisos, o filme não deixa a tensão de lado. O enquadramento das cenas se preocupa em favorecer o olhar dos personagens, especialmente o de Lucas, nos mostrando o quão devastado ele está por dentro e por fora.  A ausência de uma trilha sonora em muitos momentos ajuda no desenvolvimento cru e real daquela história.
    “A Caça” é o segundo filme que vejo com direção de Thomas Vinterberg (um dos fundadores do movimento Dogma 95), portanto não posso fazer nenhum paralelo entre este filme e suas demais obras, mas posso afirmar que a sua competência como diretor nesse filme é extraordinária. Em relação à Mads Mikkelsen, venho acompanhando sua carreira há algum tempo (especialmente na série Hannibal) e ele é sem dúvida um dos melhores atores dessa geração.
    Falar de pedofilia não é fácil, seja no cinema ou em qualquer outro tipo de arte e/ou mídia. Um tema que sempre está presente nas diversas esferas sociais e políticas é retratado de forma impactante e corajosa por Thomas Vinteberg. A inocência de uma pessoa não é o bastante para tirar uma mancha pintada erroneamente pela sociedade. E o desfecho de “A Caça” demostrou isso. A cena final numa espécie de cliffhanger nos fez questionar se todos daquela cidade inocentaram o protagonista.

27 de julho de 2015

Crítica: Antes da Meia-Noite (Before Midnight, 2013)


    Em 1995, o cinema apresentou ao mundo um dos casais mais amados pelos apreciadores da sétima arte. Estou falando de Jesse e Celine, interpretados por Ethan Hawke e Julie Delpy respectivamente e protagonistas de uma trilogia que ficará marcada para sempre como uma verdadeira obra-prima cinematográfica.
    No primeiro filme, “Antes do Amanhecer”, o diretor Richard Linklater nos mostra o momento em que Jesse e Celine se conhecem e se apaixonam. De uma forma primorosamente natural, nós assistimos o amor dos dois florescer pelas ruas de Viena na Áustria. Nove anos depois, em 2004, Linklater lança “Antes do Pôr-do-Sol” e o cenário é a deliciosa Paris, lugar onde os personagens se reencontram por acaso e discutem através de diálogos belíssimos os diferentes rumos que a vida proporcionou aos dois. Durante os nove anos que passaram longe um do outro, Jesse virou escritor e entrou em um casamento infeliz e Celine investiu em uma vida profissional que lhe garantisse sua independência.
    Mais 9 anos se passam e eis que em 2013 veio o maravilhoso “Antes da Meia-Noite” e sentimos aquela felicidade em saber que Jesse e Celine aparecem juntos e com duas filhas gêmeas. Assim como nos dois filmes anteriores, “Antes da Meia-Noite” é composto de diálogos inteligentes e extremamente naturais que nos fazem se importar com aquela história e com aqueles personagens. O roteiro escrito pelo diretor Richard Linklater juntamente com os protagonistas Julie Delpy e Ethan Hawke já explica o tom mais maduro e humano do longa. Depois de tantos anos juntos, os três realizadores do filme estão em sua mais alta sintonia e isso reflete magistralmente em suas performances e na direção.


    Dessa vez  a história se passa na Grécia, onde Jesse e Celine passam seus últimos dias de férias ao lado das filhas e de outros casais amigos. A escolha do lugar para servir de cenário ao filme foi muito bem pensada. Em meio às ruínas gregas, vemos o relacionamento de um casal entrar aos poucos em desgaste, afinal, eles se encontram em uma fase difícil da vida: a aproximação da crise da meia-idade. Assim como na vida real, Jesse e Celine também possuem dúvidas acerca de uma relação duradoura e se aquela paixão ainda permanece acesa.
    O clímax do filme é de uma naturalidade impecável, mas cruel e verdadeiro ao mesmo tempo. É dentro de um quarto de hotel que acontece o momento mais duro e sufocante da trilogia inteira. Quando Jesse e Celine estão prestes a ter uma romântica noite, basta apenas um pequeno detalhe para uma discussão aparecer. E é aí que reside a aproximação com a vida real. Sem qualquer tipo de clichê idealizado, em “Antes da Meia-Noite” assistimos as preocupações que casais reais possuem. É o filho do casamento anterior que está crescendo distante do pai, é o marido que trabalha muito e quase não está em casa, é a esposa que gostaria de ter mais tempo livre para ela mesma e tantos outros problemas que também afetam as pessoas comuns.
    A construção e o desenvolvimento dessa cena são lindos! Optar por mostrar os seios de uma forma não sensual, mas puramente natural é algo que não vemos com frequência no cinema americano. Julie Delpy atinge nessa longa cena uma atuação formidável e honesta e para mim digna de indicação a Oscar. Ethan Hawke, também muito talentoso, consegue transpor para as telas um Jesse mais velho e maduro, mas que ainda possui aquele mesmo amor jovial de 18 anos antes.
    A história de Jesse e Celine é orgânica, real, honesta com seu espectador e o belo desfecho de “Antes da Meia-Noite” nos deixa com aquele gostinho de querer ver no futuro mais um capítulo dessa história.