Recheado de personagens divertidos que muitas vezes
aparentam ser irreais, o filme propõe ao seu expectador uma história que
poderia perfeitamente ter saído de um conto de aventuras. Ao assistirmos cada
interação do protagonista com os demais personagens do enredo dentro de um
cenário multicolorido, nós conseguimos perceber uma deliciosa fábula sendo
construída diante de nossa vista. Wes Anderson nos instiga para uma diversão
incomum, onde cada participante representa uma estranha caricatura que só ele
mesmo sabe fazer (e muito bem). Temos um herói injustiçado, um vilão sem
escrúpulos, um casal de apaixonados. Todos eles moldados por uma narrativa
contagiante e com uma boa e chamativa dose de humor adulto e inteligente. Vale
lembrar que em seus dois trabalhos anteriores, “O Fantástico Sr. Raposo” (2009) e “Moonrise Kingdom” (2012), Anderson bebeu da mesma fonte fabulesca
(que parece estar em seu íntimo) para criar histórias distintas e tão adoráveis
quanto a construída em O Grande Hotel Budapeste.
E para uma narrativa tão peculiar, ele adotou um recurso
bastante lúdico para o desenvolvimento da história. Com uma divisão em
capítulos como se fosse um livro sendo contado, o longa passeia por cada etapa
e obstáculo vivido por Gustave, como sua estadia na prisão, a perseguição do
vilão Jopling (um inusitado Willem Dafoe)
e a ajuda de personagens secundários vividos por Bill Murray, Owen Wilson
e outras divertidas participações.
Outros fatores que tornam o filme mais lúdico é a
deliciosa trilha sonora composta por Alexandre
Desplat (um parceiro corriqueiro de Anderson nos últimos anos) e a famosa
paleta de cores sempre utilizada pelo diretor em sua filmografia. Desde o
cenário até ao figurino, o uso proposital de tons pasteis misturados às cores
mais vivas enaltece a influência de Anderson na construção de todo o design de
produção do longa. Uma característica curiosa é a mudança de razão de aspecto
em tempos distintos da narrativa. Nas cenas protagonizadas por Jude Law e F. Murray Abraham com suas conversas para relembrar o passado do
hotel, opta-se pelo Scope. Entretanto, na maior parte estamos assistindo a
jornada de Gustave e seu ajudante Zero (Tony
Revolori) em razão de aspecto de 4:3, uma característica singular que não
vemos com tanta frequência no cinema atual.
Ralph Fiennes
mostra que possui um lado cômico dentro de si e constrói trejeitos
comportamentais tornando Gustave um protagonista a ser adorado pelo público e
claro, adorado também por ser o maior amigo e mentor do jovem Zero. Este,
interpretado por Tony Revolori protagoniza
ao lado de Saoirse Ronan o casal de
heróis e literalmente os salvadores da grande intriga policial desencadeada
pelo vilão. É impossível citar todas as participações inclusas num elenco tão
memorável em que vemos nomes como Tilda
Swinton, Edward Norton, Adrien Brody
e Harvey Keitel.
Com uma imaginação fértil, Wes Anderson está sempre
recriando novas maneiras de nos contar fábulas para adultos costuradas por
excelentes roteiros que por vezes estão cheios de sátiras e um humor único. E “O Grande Hotel Budapeste”
é o filme mais "andersoniano" do cineasta. O filme que mais possui as melhores
características do cinema tão rico e inventivo dele. Considero este filme a
obra-prima de Wes Anderson, um verdadeiro presente para os cinéfilos com uma
combinação perfeita de versatilidade e elegância.


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