2 de agosto de 2015

Crítica: O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel, 2014)


     Não é sempre que vemos uma comédia aventuresca ser cuidadosamente desenvolvida através de um roteiro inteligente e bem amarrado. Em seu mais novo e elegante trabalho, Wes Anderson prova ser um dos cineastas mais peculiares e originais dessa geração. “O Grande Hotel Budapeste ” é, sem dúvida, uma das obras mais agradáveis lançadas em 2014 e visualmente um deleite para nossos olhos. Inspirado nos trabalhos de Stefan Zweig e com roteiro assinado pelo próprio Anderson, o filme nos conta a história de Monsieur Gustave (Ralph Fiennes), um famoso concierge do luxuoso hotel localizado no país fictício de Zubrowka que tem como seu protegido o jovem Zero (Tony Revolori), o novo Lobby Boy do hotel. Juntos, em meio a um período de guerra, os dois se envolvem numa intriga familiar, fazendo com que Gustave seja acusado de um homicídio e do roubo de um famoso quadro renascentista.
    Recheado de personagens divertidos que muitas vezes aparentam ser irreais, o filme propõe ao seu expectador uma história que poderia perfeitamente ter saído de um conto de aventuras. Ao assistirmos cada interação do protagonista com os demais personagens do enredo dentro de um cenário multicolorido, nós conseguimos perceber uma deliciosa fábula sendo construída diante de nossa vista. Wes Anderson nos instiga para uma diversão incomum, onde cada participante representa uma estranha caricatura que só ele mesmo sabe fazer (e muito bem). Temos um herói injustiçado, um vilão sem escrúpulos, um casal de apaixonados. Todos eles moldados por uma narrativa contagiante e com uma boa e chamativa dose de humor adulto e inteligente. Vale lembrar que em seus dois trabalhos anteriores, “O Fantástico Sr. Raposo” (2009) e “Moonrise Kingdom” (2012), Anderson bebeu da mesma fonte fabulesca (que parece estar em seu íntimo) para criar histórias distintas e tão adoráveis quanto a construída em O Grande Hotel Budapeste.
    E para uma narrativa tão peculiar, ele adotou um recurso bastante lúdico para o desenvolvimento da história. Com uma divisão em capítulos como se fosse um livro sendo contado, o longa passeia por cada etapa e obstáculo vivido por Gustave, como sua estadia na prisão, a perseguição do vilão Jopling (um inusitado Willem Dafoe) e a ajuda de personagens secundários vividos por Bill Murray, Owen Wilson e outras divertidas participações.

    Outros fatores que tornam o filme mais lúdico é a deliciosa trilha sonora composta por Alexandre Desplat (um parceiro corriqueiro de Anderson nos últimos anos) e a famosa paleta de cores sempre utilizada pelo diretor em sua filmografia. Desde o cenário até ao figurino, o uso proposital de tons pasteis misturados às cores mais vivas enaltece a influência de Anderson na construção de todo o design de produção do longa. Uma característica curiosa é a mudança de razão de aspecto em tempos distintos da narrativa. Nas cenas protagonizadas por Jude Law e F. Murray Abraham com suas conversas para relembrar o passado do hotel, opta-se pelo Scope. Entretanto, na maior parte estamos assistindo a jornada de Gustave e seu ajudante Zero (Tony Revolori) em razão de aspecto de 4:3, uma característica singular que não vemos com tanta frequência no cinema atual.
    Ralph Fiennes mostra que possui um lado cômico dentro de si e constrói trejeitos comportamentais tornando Gustave um protagonista a ser adorado pelo público e claro, adorado também por ser o maior amigo e mentor do jovem Zero. Este, interpretado por Tony Revolori protagoniza ao lado de Saoirse Ronan o casal de heróis e literalmente os salvadores da grande intriga policial desencadeada pelo vilão. É impossível citar todas as participações inclusas num elenco tão memorável em que vemos nomes como Tilda Swinton, Edward Norton, Adrien Brody e Harvey Keitel.
    Com uma imaginação fértil, Wes Anderson está sempre recriando novas maneiras de nos contar fábulas para adultos costuradas por excelentes roteiros que por vezes estão cheios de sátiras e um humor único. E “O Grande Hotel Budapeste” é o filme mais "andersoniano" do cineasta. O filme que mais possui as melhores características do cinema tão rico e inventivo dele. Considero este filme a obra-prima de Wes Anderson, um verdadeiro presente para os cinéfilos com uma combinação perfeita de versatilidade e elegância.

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