13 de agosto de 2015

Crítica: Planeta dos Macacos - O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes, 2014)

    
   
    Há um pouco mais de 50 anos atrás, o escritor Pierre Boulle trouxe ao mundo uma das obras que mais influenciou o universo da ficção-científica e da cultura pop. Seu livro inspirou o cineasta Franklin J. Schaffner a lançar em 1968 o clássico “O Planeta dos Macacos” estrelado por Charlton Heston e que entrou para a história do cinema . A partir de então, a franquia estendeu-se para variados rumos na tv e no cinema trazendo em 2011 o ótimo reboot “Planeta dos Macacos: A Origem” nas mãos de Rupert Wyatt. Fazer uma sequência com a mesma qualidade do seu antecessor foi um grande desafio para o diretor Matt Reeves, mas que felizmente ele conseguiu superar em todas as proporções. “Planeta dos Macacos: O Confronto” (Dawn of the Planet of the Apes) não é apenas um excelente blockbuster, mas um filme que carrega questionamentos impactantes acerca da natureza humana que reside não apenas em nós, homo sapiens, mas também em nossos primos, os símios. Mais sombrio e maduro, o novo longa consegue criar uma tensão crescente ao espectador.
    Na trama, a população humana foi quase dizimada pelo vírus da gripe símia criado em laboratório 10 anos antes, restando apenas alguns sobreviventes em meio a um cenário pós-apocalíptico nas grandes metrópoles como São Francisco. Contudo, na imensa floresta, os macacos liderados por Cesar procuram construir sua própria sociedade baseada na paz e sabedoria. Quando um grupo de humanos adentra o território dos símios para tentar reativar uma usina hidroelétrica, o estopim para um tenso e violento conflito entre as duas espécies é iniciado.


    Se no primeiro filme o foco principal é abordar a forma como os macacos adquiriram a sapiência elevada, em O Confronto nos deparamos com um belíssimo primeiro ato onde Matt Reeves aprofunda a humanização e a organização social dos símios. A fotografia exuberante das tomadas iniciais na floresta enriquece o grau de realidade ao longa, tornando aquele território belamente palpável.  Mas o foco principal está no desenvolvimento comportamental entre seres de uma mesma espécie. E este desenvolvimento está retratado nas figuras de Cesar e Koba. Enquanto Cesar conheceu amor e carinho com os humanos, Koba conheceu a dor, o sofrimento e a ganância. E isto é refletido na personalidade de cada um deles, principalmente quando eles voltam a ter contato com os humanos. Em Cesar reside a compreensão fazendo-o enxergar a bondade, principalmente em Malcolm (interpretado por Jason Clarke), entretanto, em Koba há apenas o crescimento do ódio. No grupo dos humanos há também o seu representante antagônico, que ao sentir repúdio dos macacos pela desolação em que a humanidade se encontra, reflete o enorme grau de ignorância do personagem. Paz x Ódio. Tolerância x Preconceito. Dois contrapontos brilhantemente explorados pelo roteiro.
    Mas não é apenas o bom roteiro que engrandece a dualidade vista nas figuras de Cesar e Koba. Além, é claro, dos efeitos visuais impecáveis, a performance do elenco empregada pela captura de movimentos trouxe neste filme um nível absurdamente realista. Andy Serkis, brilhante e excepcional como sempre, confere à Cesar a complexidade que o personagem merece (os planos inicial e final focados em seu olhar foi uma opção genial do diretor). Ressalto o mesmo para Toby Kebbell, que se entrega completamente na pele de Koba. O elenco dos personagens humanos encabeçado por Jason Clarke, Keri Russel e Gary Oldman acaba sendo ofuscado por todo o elenco dos personagens símios, que além dos já mencionados Serkis e Kebbell, há também Nick Thurston como o filho de Cesar, Olhos Azuis e a atriz Karin Konoval que interpreta o dócil orangotango Maurice.
    Se nos dois primeiros atos do longa há um extenso espaço para diálogos expositivos (e a excelente demonstração da comunicação através de sinais feita pelos símios), no terceiro ato vemos cenas de ação, todas perfeitamente coreografadas em planos elegantes, justificando a eficiente direção de Matt Reeves.
    Planeta dos Macacos: O Confronto dialoga com a nossa história, a história da humanidade e a construção de todas as civilizações ocidentais e orientais. Toda sociedade em construção por mais sábia que seja e mesmo com as tentativas de paz, não consegue se distanciar dos conflitos e das guerras. Como disse o filósofo Thomas Hobbes: “O homem é o lobo do homem”. E essa teoria associa-se perfeitamente às duas civilizações do filme. César sabe disso e o plano final nos confirma o que estar por vir no próximo filme.


Nenhum comentário:

Postar um comentário