Há um pouco mais de 50 anos atrás, o escritor Pierre Boulle trouxe ao mundo uma das
obras que mais influenciou o universo da ficção-científica e da cultura pop.
Seu livro inspirou o cineasta Franklin
J. Schaffner a lançar em 1968 o clássico “O Planeta dos Macacos” estrelado por Charlton Heston e que entrou para a história do cinema . A partir de então, a franquia estendeu-se
para variados rumos na tv e no cinema trazendo em 2011 o ótimo reboot “Planeta dos Macacos: A Origem” nas
mãos de Rupert Wyatt. Fazer uma
sequência com a mesma qualidade do seu antecessor foi um grande desafio para o
diretor Matt Reeves, mas que
felizmente ele conseguiu superar em todas as proporções. “Planeta dos Macacos: O Confronto” (Dawn of the Planet of the Apes) não é apenas um excelente
blockbuster, mas um filme que carrega questionamentos impactantes acerca da
natureza humana que reside não apenas em nós, homo sapiens, mas também em
nossos primos, os símios. Mais sombrio e maduro, o novo longa consegue criar
uma tensão crescente ao espectador.
Na trama, a população humana foi quase dizimada pelo vírus
da gripe símia criado em laboratório 10 anos antes, restando apenas alguns
sobreviventes em meio a um cenário pós-apocalíptico nas grandes metrópoles como
São Francisco. Contudo, na imensa floresta, os macacos liderados por Cesar procuram
construir sua própria sociedade baseada na paz e sabedoria. Quando um grupo de
humanos adentra o território dos símios para tentar reativar uma usina hidroelétrica,
o estopim para um tenso e violento conflito entre as duas espécies é iniciado.
Se no primeiro filme o
foco principal é abordar a forma como os macacos adquiriram a sapiência
elevada, em O Confronto nos deparamos
com um belíssimo primeiro ato onde Matt
Reeves aprofunda a humanização e a organização social dos símios. A fotografia
exuberante das tomadas iniciais na floresta enriquece o grau de realidade ao
longa, tornando aquele território belamente palpável. Mas o foco principal está no desenvolvimento
comportamental entre seres de uma mesma espécie. E este desenvolvimento está
retratado nas figuras de Cesar e Koba. Enquanto Cesar conheceu amor e carinho
com os humanos, Koba conheceu a dor, o sofrimento e a ganância. E isto é
refletido na personalidade de cada um deles, principalmente quando eles voltam
a ter contato com os humanos. Em Cesar reside a compreensão fazendo-o enxergar
a bondade, principalmente em Malcolm (interpretado por Jason Clarke), entretanto, em Koba há apenas o crescimento do ódio.
No grupo dos humanos há também o seu representante antagônico, que ao sentir
repúdio dos macacos pela desolação em que a humanidade se encontra, reflete o
enorme grau de ignorância do personagem. Paz x Ódio. Tolerância x Preconceito.
Dois contrapontos brilhantemente explorados pelo roteiro.
Mas não é apenas o bom roteiro que engrandece a dualidade
vista nas figuras de Cesar e Koba. Além, é claro, dos efeitos visuais
impecáveis, a performance do elenco empregada pela captura de movimentos trouxe
neste filme um nível absurdamente realista. Andy Serkis, brilhante e excepcional como sempre, confere à Cesar a
complexidade que o personagem merece (os planos inicial e final focados em seu
olhar foi uma opção genial do diretor). Ressalto o mesmo para Toby Kebbell, que se entrega
completamente na pele de Koba. O elenco dos personagens humanos encabeçado por Jason Clarke, Keri Russel e Gary Oldman
acaba sendo ofuscado por todo o elenco dos personagens símios, que além dos já mencionados
Serkis e Kebbell, há também Nick
Thurston como o filho de Cesar, Olhos Azuis e a atriz Karin Konoval que interpreta o dócil orangotango Maurice.
Se nos dois primeiros atos do longa há um extenso espaço
para diálogos expositivos (e a excelente demonstração da comunicação através de
sinais feita pelos símios), no terceiro ato vemos cenas de ação, todas
perfeitamente coreografadas em planos elegantes, justificando a eficiente
direção de Matt Reeves.
Planeta dos Macacos:
O Confronto dialoga com a nossa história, a história da humanidade e a construção
de todas as civilizações ocidentais e orientais. Toda sociedade em construção por
mais sábia que seja e mesmo com as tentativas de paz, não consegue se
distanciar dos conflitos e das guerras. Como disse o filósofo Thomas Hobbes: “O homem é o lobo do
homem”. E essa teoria associa-se perfeitamente às duas civilizações do filme.
César sabe disso e o plano final nos confirma o que estar por vir no próximo filme.


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