19 de agosto de 2015

Crítica: Trainspotting - Sem Limites (Trainspotting, 1996)



“Escolha viver. Escolha um emprego. Escolha uma carreira, uma família. Escolha uma televisão enorme. Escolha lavadora, carro, CD Player e abridor de latas elétrico. Escolha saúde, colesterol baixo e plano dentário. Escolha viver. Mas por que eu iria querer isso? Escolhi não viver. Escolhi outra coisa. Os motivos? Não há motivos. Quem precisa de motivos quando tem heroína?”.  É com esta frase marcante que inicia-se um dos filmes mais cultuados do cinema alternativo. Em 1996, o britânico Danny Boyle ousou lançar aquele que se tornaria o filme mais lembrado de sua carreira. “Trainspotting” é baseado no livro homônimo escrito por Irvine Welsh e conta as desventuras de Mark Renton (Ewan McGregor), um jovem do subúrbio de Edimburgo viciado em heroína que junto com seus amigos também viciados, se envolvem em golpes a traficantes.
    
Costurado por um roteiro ácido cheio de diálogos rápidos, Trainspotting passeia pelo cotidiano de um viciado, mostrando a fugacidade das consequências geradas por esse estilo de vida. Mas Danny Boyle não está disposto a julgar o uso de entorpecentes através de um “panfletarismo” careta e muito menos de fazer apologia às drogas. A proposta dele é mostrar um comportamento comum da “geração pub” dos anos 90 que ao negar uma vida hipócrita, certinha e pré-programada, decidia viver contra às regras. O discurso crítico e até niilista do protagonista Renton na cena inicial do longa, reflete o que movia muitos jovens dessa época. Escolher “não viver” ao invés de uma carreira ou uma vida normal fazia-os acreditar que estavam dentro de uma filosofia nova e libertadora, onde não há motivos para nada, apenas a maior curtição do mundo: a heroína. A heroína representava não um subterfúgio para os problemas da vida, mas sim a libertação dentro de uma sociedade de consumo.


Ao filmar de maneira deselegante e aleatória as desventuras de Renton e seus amigos Spud, Sick Boy, Tommy e Begbie, Danny Boyle opta por um jogo rápido de planos que casa perfeitamente com o estilo de vida destes personagens. Sem se preocupar com um estilo rebuscado visualmente falando, o diretor investe em simbologias interessantíssimas no decorrer de seus 94 minutos de longa. Simbologias que estão em cenas memoráveis como a cena do banheiro público onde Renton mergulha em uma privada para não perder seus supositórios de heroína e que podemos interpretar como a entrada numa vida onde só encontra-se merda; e a cena onde o mesmo após sofrer uma overdose, alucina estar afundando em um tapete como se estivesse entrando num caixão.
    
No seu primeiro papel de destaque no cinema, Ewan McGregor está espetacular, me arrisco até a dizer que esta é uma das suas maiores performances. Seus coadjuvantes também não ficam para trás. Jonny Lee Miller na pele de Sick Boy, Ewen Bremner como Spud e Robert Carlyle como Begbie se destacam como estes personagens divertidos e ao mesmo tempo desagradáveis. Personagens que mesmo vivendo em camaradagem, não hesitam em enganar uns aos outros.

E em meio às alucinações, à crítica impiedosa presente no roteiro e à quebra de linearidade no tempo, Trainspotting só podia ter uma trilha sonora que combinasse perfeitamente com a rotina de Renton e sua trupe. Nomes como Lou Reed, Iggy Pop e Underworld embalam esse longa mais que desenfreado. 
    
Sem qualquer preocupação em nos fazer chocar, Danny Boyle estampa na nossa cara o sentimento de auto- suficiência provocado por uma vida regada a entorpecentes que fazem estes personagens criticarem a sociedade de consumo. Mas quem foi disse que as drogas não são também subprodutos de uma sociedade de consumo?


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