Escrita pelo iniciante roteirista Nic Pizzolatto, True
Detective deixa claro que desde o início o foco principal são seus
personagens, em especial a dupla protagonista, fazendo com que o enredo e a
narrativa sirvam como um brilhante guia para nos aprofundarmos na psiqué e nos
conflitos destes personagens.
Preciso avisar que não pretendo revelar muitos detalhes da
série, uma vez que isso estragaria a experiência para quem ainda não a
assistiu. Portanto, se você está lendo este texto sem ter visto a série, não se
preocupe, pois você não encontrará spoilers importantes que comprometerão os
mistérios do enredo.
True Detective é
essencialmente uma série antológica. Sua primeira temporada tem início e
desfecho próprio com personagens próprios e isso é algo fascinante na narrativa
escrita por Pizzolatto. Ele nos apresenta uma trama composta de duas linhas
temporais, mas que paralelamente estão inter-relacionadas. No ano de 2012,
vemos os detetives Marty Hart (Woody
Harrelson) e Rust Cohle (Matthew
McConaughey) sendo interrogados por um assassinato polêmico que aconteceu
17 anos antes no interior da Louisiana. Através de flashbacks, voltamos ao ano
de 1995 e assistimos a dupla tentar solucionar o maior e mais sinistro caso da carreira
deles.
A premissa citada acima pode aparentar ser simples, mas True
Detective desenvolve ao longo de seus 8 episódios uma das tramas mais originais
já produzidas que foge dos típicos clichês que vemos em muitas séries investigativas
por aí. Com questionamentos existenciais e filosóficos e ecos de uma influência
de contos de terror e fantasia, a série leva o expectador a um estado
hipnótico. Termina um episódio e você já quer de imediato assistir ao próximo.
É surreal o poder que a narrativa de Pizzolatto têm sob a mente do expectador,
e ele faz isso sem o propósito de subestimar ninguém.
Nos primeiros episódios, vemos os dois protagonistas se
conhecer e formar uma dupla que tem tudo para não lograr êxito em sua missão.
Rust e Marty são completamente diferentes um do outro. Uma diferença abissal!
Enquanto Marty é um típico policial que trabalha pela família e gosta de levar
uma vida normal, Rust é a pessoa mais pessimista que existe na face da Terra.
Ele escolheu uma vida solitária por motivos sutilmente revelados à medida que
entendemos o personagem. Seus estranhos comentários filosóficos (e até
niilistas) levam às questões fundamentais para a trama, afinal, há Luz e
Escuridão em tudo que existe nesse vasto mundo. (E por que não haveria em cada
um de nós também?!). O caso que eles precisam desvendar traz à tona as
complexidades que Rust e Marty possuem. À medida que a série avança somos
apresentados à camadas e mais camadas que vestem cada um deles. E com isso,
nós, expectadores, nos tornamos tão obcecados quanto eles.
Para interpretar personagens tão obscuros, apenas atores de
exímia competência poderiam dar conta deles. E Matthew McConaughey e Woody
Harrelson dão um show de atuação! Matthew que ganhou um Oscar por “Clube de Compras Dallas”, consegue em True Detective uma performance
assustadoramente incrível (que deu a ele a indicação ao Emmy) e a maquiagem usada nas cenas do ano de 2012 exalta o quanto
seu personagem está devastado. Mas Woody
Harrelson não fica para trás. Ele esbanja em cena uma performance que
revela tão bem as nuances que caracterizam Marty nas duas linhas temporais da
história. E mesmo com poucas personagens femininas, estas se destacam,
principalmente Maggie, esposa de Marty (interpretada pela talentosa Michelle Monaghan).
A direção de Cary
Fukunaga é um show à parte. Responsável pelos 8 episódios da temporada,
Fukunaga cria aqui uma qualidade linear em sua forma de dirigir. Todos os
episódios são belamente filmados e orquestrados por ele. Ressalto aqui a
incrível cena de 6 minutos filmada em plano-sequência que fecha o episódio 04 e
deixa qualquer um completamente sem fôlego. É cinema de qualidade, e não tv! A
fotografia e trilha sonora exuberantes transformam o cenário em mais um personagem.
A desolação da Louisiana pré e pós-Katrina são o palco perfeito para essa
história.
Quero fazer aqui uma menção honrosa à belíssima abertura da
série que ao som da música ‘Far fom any
road’ da banda The Handsome Family
já é uma das aberturas mais perfeitas das séries televisivas. Aliás, a trilha sonora inteira da série só
acrescenta mais qualidade para True Detective, com músicas que casam muito bem
com a melancolia e obscuridade dessa série.
O fim dessa temporada foi algo comentado em todos os
lugares. Minha opinião sobre ele é que em vez de criar um desfecho mirabolante,
Pizzolatto optou por algo mais simples que explicou de uma forma sóbria (mas
emocionante) os conflitos de seus protagonistas.
Depois de uma excelente primeira temporada, True Detective foi considerada a melhor nova série de 2014. Este ano está vindo a segunda com uma nova história e um novo elenco.
E você...já foi à Carcosa?


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