1 de agosto de 2015

Crítica: True Detective - 1ª Temporada (2014)



     Séries e filmes produzidos pela HBO quase sempre são um deleite para nossos olhos. O alto padrão televisivo (que mais parece cinema) é uma marca registrada por este que é um dos canais VIP da tv americana. Este nível de qualidade nós podemos enxergar em diversas séries como a atual Game of Thrones. E em 2014, surgiu esta que é uma série que já a partir de seu primeiro episódio confirma que veremos mais uma grande e maravilhosa produção da Home Box Office.
    Escrita pelo iniciante roteirista Nic Pizzolatto, True Detective deixa claro que desde o início o foco principal são seus personagens, em especial a dupla protagonista, fazendo com que o enredo e a narrativa sirvam como um brilhante guia para nos aprofundarmos na psiqué e nos conflitos destes personagens.
    Preciso avisar que não pretendo revelar muitos detalhes da série, uma vez que isso estragaria a experiência para quem ainda não a assistiu. Portanto, se você está lendo este texto sem ter visto a série, não se preocupe, pois você não encontrará spoilers importantes que comprometerão os mistérios do enredo.
    True Detective é essencialmente uma série antológica. Sua primeira temporada tem início e desfecho próprio com personagens próprios e isso é algo fascinante na narrativa escrita por Pizzolatto. Ele nos apresenta uma trama composta de duas linhas temporais, mas que paralelamente estão inter-relacionadas. No ano de 2012, vemos os detetives Marty Hart (Woody Harrelson) e Rust Cohle (Matthew McConaughey) sendo interrogados por um assassinato polêmico que aconteceu 17 anos antes no interior da Louisiana. Através de flashbacks, voltamos ao ano de 1995 e assistimos a dupla tentar solucionar o maior e mais sinistro caso da carreira deles.



   A premissa citada acima pode aparentar ser simples, mas True Detective desenvolve ao longo de seus 8 episódios uma das tramas mais originais já produzidas que foge dos típicos clichês que vemos em muitas séries investigativas por aí. Com questionamentos existenciais e filosóficos e ecos de uma influência de contos de terror e fantasia, a série leva o expectador a um estado hipnótico. Termina um episódio e você já quer de imediato assistir ao próximo. É surreal o poder que a narrativa de Pizzolatto têm sob a mente do expectador, e ele faz isso sem o propósito de subestimar ninguém.
    Nos primeiros episódios, vemos os dois protagonistas se conhecer e formar uma dupla que tem tudo para não lograr êxito em sua missão. Rust e Marty são completamente diferentes um do outro. Uma diferença abissal! Enquanto Marty é um típico policial que trabalha pela família e gosta de levar uma vida normal, Rust é a pessoa mais pessimista que existe na face da Terra. Ele escolheu uma vida solitária por motivos sutilmente revelados à medida que entendemos o personagem. Seus estranhos comentários filosóficos (e até niilistas) levam às questões fundamentais para a trama, afinal, há Luz e Escuridão em tudo que existe nesse vasto mundo. (E por que não haveria em cada um de nós também?!). O caso que eles precisam desvendar traz à tona as complexidades que Rust e Marty possuem. À medida que a série avança somos apresentados à camadas e mais camadas que vestem cada um deles. E com isso, nós, expectadores, nos tornamos tão obcecados quanto eles.


    Para interpretar personagens tão obscuros, apenas atores de exímia competência poderiam dar conta deles. E Matthew McConaughey e Woody Harrelson dão um show de atuação! Matthew que ganhou um Oscar por “Clube de Compras Dallas”, consegue em True Detective uma performance assustadoramente incrível (que deu a ele a indicação ao Emmy) e a maquiagem usada nas cenas do ano de 2012 exalta o quanto seu personagem está devastado. Mas Woody Harrelson não fica para trás. Ele esbanja em cena uma performance que revela tão bem as nuances que caracterizam Marty nas duas linhas temporais da história. E mesmo com poucas personagens femininas, estas se destacam, principalmente Maggie, esposa de Marty (interpretada pela talentosa Michelle Monaghan).
    A direção de Cary Fukunaga é um show à parte. Responsável pelos 8 episódios da temporada, Fukunaga cria aqui uma qualidade linear em sua forma de dirigir. Todos os episódios são belamente filmados e orquestrados por ele. Ressalto aqui a incrível cena de 6 minutos filmada em plano-sequência que fecha o episódio 04 e deixa qualquer um completamente sem fôlego. É cinema de qualidade, e não tv! A fotografia e trilha sonora exuberantes transformam o cenário em mais um personagem. A desolação da Louisiana pré e pós-Katrina são o palco perfeito para essa história.
    Quero fazer aqui uma menção honrosa à belíssima abertura da série que ao som da música ‘Far fom any road’ da banda The Handsome Family já é uma das aberturas mais perfeitas das séries televisivas. Aliás, a trilha sonora inteira da série só acrescenta mais qualidade para True Detective, com músicas que casam muito bem com a melancolia e obscuridade dessa série.
    O fim dessa temporada foi algo comentado em todos os lugares. Minha opinião sobre ele é  que em vez de criar um desfecho mirabolante, Pizzolatto optou por algo mais simples que explicou de uma forma sóbria (mas emocionante) os conflitos de seus protagonistas.
   Depois de uma excelente primeira temporada, True Detective foi considerada a melhor nova série de 2014. Este ano está vindo a segunda com uma nova história e um novo elenco. 
    
   E você...já foi à Carcosa?

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