29 de julho de 2015

Crítica: Ela (Her, 2013)


    A tecnologia já se tornou algo inerente ao mundo em que vivemos. Desde a Revolução Industrial e principalmente com a Revolução Técnico-Científica, os avanços tecnológicos passaram a fazer parte da rotina de nossas vidas. Mas será que hoje essa tecnologia tem grande influência sobre nossos relacionamentos ou isso é apenas coisa para se pensar em um futuro não muito distante? Para mim ela já está difundida em nosso meio, afinal, vivemos na era das redes sociais. Mas, em “Ela” (Her, 2013), o mais recente filme do cultuado diretor e roteirista Spike Jonze, essa influência tecnológica atinge proporções maiores e por incrível que pareça de uma forma bem profunda.
    Num futuro não determinado, Spike Jonze nos apresenta uma Los Angeles onde a tecnologia está em toda parte. E é nesta futura Los Angeles onde vive Theodore (Joaquin Phoenix), um homem melancólico e recém-separado daquela que ele imaginava ser a mulher de sua vida, Catherine (Rooney Mara). Mesmo com amigos ao seu redor, Theodore sente um vazio interno, a falta de alguém com quem possa compartilhar o amor. Contudo, as coisas mudam quando ele adquire uma novidade tecnológica criada para preencher esse vazio existencial. Trata-se de um sistema operacional inteligente capaz de se socializar com seu dono. E o SO de Theodore possui um nome e uma voz feminina: Samantha (voz de Scarlett Johansson). Aos poucos a relação dos dois cresce de forma gradual e sensível a ponto de florescer um amor entre eles.
    Através de um roteiro escrito por ele próprio, Spike Jonze nos permite conhecer uma história de amor fora dos padrões convencionais. O romance entre Theodore e Samantha é desenvolvido sutilmente com uma originalidade tão palpável, que nos faz acreditar que o futuro possa de fato, ser daquele jeito. Em “Ela”, Jonze põe em questão: Será que um Sistema Operacional com todo o seu intelecto virtual pode ter sentimentos reais? Pode se apoderar desses sentimentos e construir uma personalidade própria? Samantha é a prova de que naquele universo melancólico, uma inteligência artificial dentro de um computador consegue ser mais humano que muitas pessoas de carne e osso. Ela ri com naturalidade, suspira, percebe quando alguém está triste. E todo o mérito da personagem está no trabalho de voz realizado por Scarlett Johansson. Ao emprestar sua voz ao Sistema Operacional, Scarlett nos convence que Samantha possui alma e que o desenvolvimento da personagem é orgânico e real. 


    Outro ponto forte do filme é a performance brilhante de Joaquin Phoenix. Depois de seu trabalho anterior vivendo um intenso personagem em “O Mestre” de Paul Thomas Anderson, em “Ela” Phoenix incorpora um Theodore melancolicamente fofo, mas complexo ao mesmo tempo. O personagem autoanalisa seu caráter e personalidade justificando que nós somos aquilo que construímos dentro de nossos relacionamentos afetivos e sociais, sejam num casamento ou em um namoro não convencional.
    Os coadjuvantes do filme também estão bastante competentes em suas participações: Amy Adams e Chris Pratt como os amigos essenciais à vida de Theodore; Rooney Mara como a ex-esposa  Catherine; e Olivia Wilde como uma mulher que tem um encontro romântico com Theodore. Vale lembrar as inusitadas participações de Kristen Wiig e do próprio diretor Spike Jonze emprestando suas vozes à SexyKitten e ao pequeno alien do videogame de Theodore respectivamente.
    A fotografia assinada por Hoyte Van Hoytema  é de encher os olhos de tão bonita. O uso de cores neutras com tons de rosa e vermelho entra em sintonia com o desenvolvimento das relações vividas por Theodore. A trilha sonora original composta pela banda indie Arcade Fire (da qual sou fã) é suave e  tornando o filme mais agradável e sensível do que já é. E o que dizer da linda música “The Moon Song” composta por Karen O. e Spike Jonze?! A cena do dueto entre Samantha e Theodore cantando essa música é um dos momentos mais sentimentais do filme.
    E sentimento é o que não falta em “Ela”. Desde o seu interessante roteiro às performances de seu elenco, Spike Jonze nos presenteia com um longa que traz emoções e ao mesmo tempo questionamentos sociais. Com cinco indicações ao Oscar 2014 (melhor filme, roteiro original canção original, trilha sonora original e design de produção) , “Ela” já nasceu com potencial para ser um futuro clássico cult.
    E parafraseando a personagem de Amy Adams: “Apaixonar-se é uma forma de insanidade socialmente aceitável”.  Existe algo mais verdadeiro que isso?  Seja no presente ou no futuro, o amor é igual nas suas diferentes formas. Até mesmo o amor por uma inteligência artificial. Mas Samantha não é artificial. Samantha é naturalmente real.

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