Se existe um diretor que sabe tratar de assuntos comuns
de forma tão extraordinária, este é Alexander Payne. Com uma lista ainda
pequena de longas-metragens (mas, há vários anos na estrada cinematográfica),
Payne possui uma visão intimista e ao mesmo tempo complexa sobre temas inerentes
à vida. Casamento, família, cumplicidade, envelhecimento. Tudo isso é
aproximado ao máximo para a vida real nas mãos desse brilhante cineasta.
Em “Nebraska”, o veterano Bruce Dern encarna Woody Grant,
um homem idoso que sofre de problemas de memória e acredita ter ganhado 1
milhão de dólares ao receber uma carta lhe informando sobre o prêmio. A sua
maior vontade é ir até a cidade de Lincoln no estado de Nebraska, a fim de
trocar a carta pelo prêmio e para isso ele ganha a companhia de seu filho David
(interpretado por Will Forte) na viagem até o destino desejado. Contudo, essa não é apenas uma simples
viagem, mas uma verdadeira jornada de conhecimento recíproco entre pai e filho.
David nunca esteve tão próximo do pai e essa inesperada aproximação trouxe à
tona novas descobertas sobre o passado daquele que cuidou (ou deixou de cuidar)
da esposa e dos filhos. A visão que temos de Woody, é que ele nunca foi um pai
e marido perfeitos. Seus problemas com alcoolismo no passado justificam o
cansaço sentido pela sua esposa, Kate (interpretada pela excelente e cativante
June Squibb), em aturar a semi-demência do marido.
Assim como em “Sideways”(2004), Alexander Payne repete
aqui a narrativa do bom e velho road movie. Nós, espectadores, seguimos viagem
com aqueles personagens e nos vemos tão próximos deles a ponto de sentirmos
identificação com os mesmos. A vida pacata da família Grant é semelhante à de muitas famílias mundo afora. E é por isso
que Nebraska se destaca ao contar uma história de gente como a gente. De pessoas de carne e osso que não vivem uma
história idealizada e cheia de clichês melodramáticos.
O ótimo roteiro escrito por Bob Nelson possui uma
linguagem simples e levemente cômica, traçando um paralelo entre a importância
da cumplicidade em família com os prejuízos causados pela crise
americana de 2008. Muitos americanos de classe média veem-se até hoje afetados
pela crise econômica, especialmente os moradores daquela região mostrada no
filme. Há cenas que evidenciam as tentativas de alguns personagens em sair da
crise. Ao descobrir que Woody está “milionário”, vários familiares tentam se
aproveitar pedindo dinheiro ou cobrando dívidas há muito esquecidas. O mesmo
vale para o antigo amigo e sócio, Ed Pegram (Stacy Keach), outro que tenta
tirar proveito da situação de Woody. Quando citei a cumplicidade familiar, quis
dizer que mesmo com as diferenças vividas nas relações marido/esposa e
pai/filho, estes se unem para defender uns aos outros.
Sem dúvida, uma
das características mais chamativas do filme é sua bela fotografia em preto em
branco. O trabalho exemplar de Phedon Papamichael transforma a fotografia e o
cenário em personagens. A preocupação do
diretor de fotografia e do próprio
Alexander Payne é mostrar os problemas
daquele microcosmo familiar usando a falta de cores como uma das ferramentas. A
realidade é, antes de tudo, crua e não possui cor. O uso do preto e branco foi
uma escolha acertada. O mesmo vale para a ótima trilha sonora embalada por um
country melancólico composto por Mark Orton.
Outra escolha mais que acertada em “Nebraska”, é o seu
competente elenco. Bruce Dern, que foi premiado em Cannes e indicado ao Oscar
por esse filme, apresenta uma performance brilhante que marca o seu retorno
como um grande protagonista. Ele demonstra em Woody a fragilidade da velhice e
ao mesmo tempo a determinação de seguir adiante. June Squibb (também
indicada ao Oscar) é encantadora e
cativante e protagoniza as cenas mais hilárias do longa. A grata surpresa do
filme foi assistir Will Forte num papel sensível e melancólico. Ele que é
famoso por ser comediante do Saturday Night Live, consegue com muita ternura e
competência interpretar o filho David. Este, que vê a importância de cuidar e
passar mais tempo com seu pai, mas que também teme em ter um futuro semelhante
ao dele.
Preciso confessar que este foi um dos filmes de 2013 que mais
tocou o meu coração. Me fez refletir profundamente sobre o que de fato importa
na vida familiar e na convivência com aqueles que nos criaram e nos formaram
como pessoa.
Mais que uma celebração à família, “Nebraska” é um conto
que expõe de forma simples e realista, uma América sem esperanças e o filme configura-se como um dos road
movies mais cativantes dos últimos anos.


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