30 de julho de 2015

Crítica: Nebraska (2013)


    Se existe um diretor que sabe tratar de assuntos comuns de forma tão extraordinária, este é Alexander Payne. Com uma lista ainda pequena de longas-metragens (mas, há vários anos na estrada cinematográfica), Payne possui uma visão intimista e ao mesmo tempo complexa sobre temas inerentes à vida. Casamento, família, cumplicidade, envelhecimento. Tudo isso é aproximado ao máximo para a vida real nas mãos desse brilhante cineasta.
    Em “Nebraska”, o veterano Bruce Dern encarna Woody Grant, um homem idoso que sofre de problemas de memória e acredita ter ganhado 1 milhão de dólares ao receber uma carta lhe informando sobre o prêmio. A sua maior vontade é ir até a cidade de Lincoln no estado de Nebraska, a fim de trocar a carta pelo prêmio e para isso ele ganha a companhia de seu filho David (interpretado por Will Forte) na viagem até o destino desejado.  Contudo, essa não é apenas uma simples viagem, mas uma verdadeira jornada de conhecimento recíproco entre pai e filho. David nunca esteve tão próximo do pai e essa inesperada aproximação trouxe à tona novas descobertas sobre o passado daquele que cuidou (ou deixou de cuidar) da esposa e dos filhos. A visão que temos de Woody, é que ele nunca foi um pai e marido perfeitos. Seus problemas com alcoolismo no passado justificam o cansaço sentido pela sua esposa, Kate (interpretada pela excelente e cativante June Squibb), em aturar a semi-demência do marido.
    Assim como em “Sideways”(2004), Alexander Payne repete aqui a narrativa do bom e velho road movie. Nós, espectadores, seguimos viagem com aqueles personagens e nos vemos tão próximos deles a ponto de sentirmos identificação com os mesmos. A vida pacata da família Grant é semelhante à  de muitas famílias mundo afora. E é por isso que Nebraska se destaca ao contar uma história de gente como a gente.  De pessoas de carne e osso que não vivem uma história idealizada e cheia de clichês melodramáticos.
    O ótimo roteiro escrito por Bob Nelson possui uma linguagem simples e levemente cômica, traçando um paralelo entre a importância da cumplicidade em família com os prejuízos causados pela crise americana de 2008. Muitos americanos de classe média veem-se até hoje afetados pela crise econômica, especialmente os moradores daquela região mostrada no filme. Há cenas que evidenciam as tentativas de alguns personagens em sair da crise. Ao descobrir que Woody está “milionário”, vários familiares tentam se aproveitar pedindo dinheiro ou cobrando dívidas há muito esquecidas. O mesmo vale para o antigo amigo e sócio, Ed Pegram (Stacy Keach), outro que tenta tirar proveito da situação de Woody. Quando citei a cumplicidade familiar, quis dizer que mesmo com as diferenças vividas nas relações marido/esposa e pai/filho, estes se unem para defender uns aos outros.


     Sem dúvida, uma das características mais chamativas do filme é sua bela fotografia em preto em branco. O trabalho exemplar de Phedon Papamichael transforma a fotografia e o cenário em personagens.  A preocupação do diretor de fotografia  e do próprio Alexander Payne  é mostrar os problemas daquele microcosmo familiar usando a falta de cores como uma das ferramentas. A realidade é, antes de tudo, crua e não possui cor. O uso do preto e branco foi uma escolha acertada. O mesmo vale para a ótima trilha sonora embalada por um country melancólico composto por Mark Orton.
    Outra escolha mais que acertada em “Nebraska”, é o seu competente elenco. Bruce Dern, que foi premiado em Cannes e indicado ao Oscar por esse filme, apresenta uma performance brilhante que marca o seu retorno como um grande protagonista. Ele demonstra em Woody a fragilidade da velhice e ao mesmo tempo  a determinação  de seguir adiante. June Squibb (também indicada ao Oscar) é encantadora e cativante e protagoniza as cenas mais hilárias do longa. A grata surpresa do filme foi assistir Will Forte num papel sensível e melancólico. Ele que é famoso por ser comediante do Saturday Night Live, consegue com muita ternura e competência interpretar o filho David. Este, que vê a importância de cuidar e passar mais tempo com seu pai, mas que também teme em ter um futuro semelhante ao dele.
    Preciso confessar que este foi um dos filmes de 2013 que mais tocou o meu coração. Me fez refletir profundamente sobre o que de fato importa na vida familiar e na convivência com aqueles que nos criaram e nos formaram como pessoa.
    Mais que uma celebração à família, “Nebraska” é um conto que expõe de forma simples e realista, uma América sem esperanças  e o filme configura-se como um dos road movies mais cativantes dos últimos anos.

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