29 de julho de 2015

Crítica: Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are, 2009)


 
    
    Um projeto que retrata os anseios infantis de uma maneira peculiar e que exige um certo grau de sensibilidade aguçada de seu expectador, certamente é um trunfo na carreira de um cineasta. Em 2009, o diretor Spike Jonze adaptou para as telonas o livro infantil Onde Vivem os Monstros escrito por Maurice Sendak. O livro voltado exclusivamente para as crianças, possui muitas ilustrações e pouco texto. Entretanto, Jonze (com a benção do próprio Maurice), criou em seu filme um roteiro complexo e cheio de nuances sobre essa fase da vida e seus conflitos.
    Em Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are), conhecemos Max, um garoto solitário, com uma imaginação fértil e dono de uma pequena rebeldia por não se sentir o centro das atenções em sua família. Chateado com sua irmã mais velha e com a presença do namorado de sua mãe, Max veste sua fantasia de lobo e foge para um universo próprio habitado por criaturas selvagens. Lá ele é coroado rei e promete afastar toda a tristeza que possa afligir seus novos amigos.
    No decorrer da narrativa, percebemos a pureza que existe no escapismo imaginativo de uma criança. O seu mundo de monstros serve perfeitamente como um lugar onde ele se sente protegido. Mas também, um lugar onde ele finalmente se torna o centro das atenções, afinal, agora ele é o rei das criaturas selvagens. Mesmo em meio a um tom onírico, Jonze nos mostra uma verdadeira jornada de amadurecimento pela qual Max percorre. Aos poucos, o garoto percebe o quanto é difícil manter a união na sua pequena sociedade de monstros e ao mesmo tempo vai descobrindo a importância que essa experiência trouxe para enfim voltar para casa. Cada uma das criaturas é uma parte de Max, cada uma representa os sentimentos intrínsecos que moram na psique infantil.

    A transição do mundo real para o mundo fantasioso é feita de forma bastante orgânica, passando do uso da câmera na mão enquanto acompanhamos o garoto enfurecido e triste dentro de casa para uma fotografia exuberante naquele mundo exótico e cheio de seres animalescos. (Jonze optou pela fidelidade às ilustrações presentes no livro escrito por Sendak). Aliás, o uso de bonecos em vez de computação gráfica, conferiu uma maior realidade à imaginação do pequeno Max, fazendo com que o expectador se sentisse mais próximo da relação construída entre o garoto e seus novos amigos. E quando vemos a relação entre o garoto e o monstro Carol, percebemos o quanto os dois são parecidos quando se trata de raiva e abandono.
    Spike Jonze fez questão de criar pequenas e delicadas cenas em que uma epifania vem à mente do garoto. Como a cena onde Max está escondido dentro da criatura KW e a partir daí vemos um maior amadurecimento nas atitudes infantis dele. Momento este que firma sua decisão de voltar pra casa e finalmente entender os sentimentos de sua mãe.
    O cenário lúdico e fantasioso enaltecido pela bela fotografia soma-se à doce trilha sonora composta por Carter Burwell em parceria com a cantora Karen O. para ampliar a essência da infância tão brilhantemente retratada no longa. A essência da fase mais importante da vida. A essência da construção da nossa personalidade. Afinal, ser criança é deixar sua imaginação fluir e descobrir os pequenos monstros essenciais que vivem dentro de nós.

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