28 de julho de 2015

Crítica: A Caça (Jagten, 2012)


    O cinema europeu sempre consegue contar uma boa história sobre temas polêmicos e delicados, coisa que poucas vezes vemos Hollywood fazer.
    O drama “A Caça” (Jagten no título original), dirigido pelo dinamarquês Thomas Vinterberg, é um desses filmes que mexem com nossos sentimentos, nos colocando ao mesmo tempo em lados opostos da mesma moeda. Confesso que nunca me senti tão angustiada vendo um caso de injustiça sofrida por um personagem e você não poder fazer nada para ajudá-lo. Esse é o grande trunfo trazido por Vinterberg: saber a verdade da inocência de um personagem, se importar imensamente por ele a ponto de querer entrar no filme e ajudar a resolver a situação.
    Mas vamos aos fatos. A história do filme se passa numa pequena comunidade onde mora Lucas, um professor de uma creche e que se dá bem com todo mundo, é rodeado de amigos e sua gentileza é visível a partir da primeira cena. Ele acaba de passar por um divórcio e quer que seu filho venha morar com ele.  Contudo, ele é acusado de um crime terrível: pedofilia. A pequena Klara, filha de seu melhor amigo e aluna da creche, conta à diretora que Lucas mostrou suas partes intimas à ela. Achando difícil uma criança inventar algo desse tipo, a diretora passa a acreditar que Lucas é um pedófilo e é a partir daí que se desencadeia uma acusação contra ele e que manchará sua reputação perante à comunidade.
    Nós, espectadores, sabemos desde o início que Lucas é inocente. Sabemos que ele nunca cometeu nenhum tipo de abuso sexual contra uma criança. Mas o filme tem o objetivo de nos mostrar os dois lados da história: o acusado inocente e os acusadores. A caça e os caçadores.


    É compreensível a atitude daquela comunidade ao se revoltar com o suposto crime. Coloque-se na pele dos pais da garotinha. Dificilmente você acharia que ela estivesse mentindo. Vinterberg mostra de uma forma sutil, mas ao mesmo tempo tensa, o desenvolvimento da injusta decadência moral do protagonista. O ator Mads Mikkelsen está formidável como Lucas, mesclando seus momentos de sofrimento com seus momentos de revolta de uma forma intensa e memorável. São angustiantes as cenas onde vemos ele ter que lidar com aquela complicada situação a sua volta. A pequena Annika Wedderkopp, intérprete da garotinha Klara, também está brilhante. Ela consegue passar a infantil interpretação dos fatos que foram consequências de sua mentira. Crianças não conseguem medir o peso de suas palavras e no filme isso gerou uma situação desastrosa.
    A direção e o roteiro de Thomas Vinterberg estão impecáveis. Mesmo com diálogos diretos e concisos, o filme não deixa a tensão de lado. O enquadramento das cenas se preocupa em favorecer o olhar dos personagens, especialmente o de Lucas, nos mostrando o quão devastado ele está por dentro e por fora.  A ausência de uma trilha sonora em muitos momentos ajuda no desenvolvimento cru e real daquela história.
    “A Caça” é o segundo filme que vejo com direção de Thomas Vinterberg (um dos fundadores do movimento Dogma 95), portanto não posso fazer nenhum paralelo entre este filme e suas demais obras, mas posso afirmar que a sua competência como diretor nesse filme é extraordinária. Em relação à Mads Mikkelsen, venho acompanhando sua carreira há algum tempo (especialmente na série Hannibal) e ele é sem dúvida um dos melhores atores dessa geração.
    Falar de pedofilia não é fácil, seja no cinema ou em qualquer outro tipo de arte e/ou mídia. Um tema que sempre está presente nas diversas esferas sociais e políticas é retratado de forma impactante e corajosa por Thomas Vinteberg. A inocência de uma pessoa não é o bastante para tirar uma mancha pintada erroneamente pela sociedade. E o desfecho de “A Caça” demostrou isso. A cena final numa espécie de cliffhanger nos fez questionar se todos daquela cidade inocentaram o protagonista.

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