O cinema europeu sempre consegue contar uma boa história
sobre temas polêmicos e delicados, coisa que poucas vezes vemos Hollywood
fazer.
O drama “A Caça” (Jagten no título original), dirigido pelo
dinamarquês Thomas Vinterberg, é um desses filmes que mexem com nossos
sentimentos, nos colocando ao mesmo tempo em lados opostos da mesma moeda. Confesso
que nunca me senti tão angustiada vendo um caso de injustiça sofrida por um
personagem e você não poder fazer nada para ajudá-lo. Esse é o grande trunfo
trazido por Vinterberg: saber a verdade da inocência de um personagem, se
importar imensamente por ele a ponto de querer entrar no filme e ajudar a
resolver a situação.
Mas vamos aos fatos. A história do filme se passa numa
pequena comunidade onde mora Lucas, um professor de uma creche e que se dá bem
com todo mundo, é rodeado de amigos e sua gentileza é visível a partir da
primeira cena. Ele acaba de passar por um divórcio e quer que seu filho venha
morar com ele. Contudo, ele é acusado de
um crime terrível: pedofilia. A pequena Klara, filha de seu melhor
amigo e aluna da creche, conta à diretora que Lucas mostrou suas partes intimas
à ela. Achando difícil uma criança inventar algo desse tipo, a diretora passa a
acreditar que Lucas é um pedófilo e é a partir daí que se desencadeia uma
acusação contra ele e que manchará sua reputação perante à comunidade.
Nós, espectadores, sabemos desde o início que Lucas é
inocente. Sabemos que ele nunca cometeu nenhum tipo de abuso sexual contra uma
criança. Mas o filme tem o objetivo de nos mostrar os dois lados da história: o
acusado inocente e os acusadores. A caça e os caçadores.
É compreensível a atitude daquela comunidade ao se revoltar
com o suposto crime. Coloque-se na pele dos pais da garotinha. Dificilmente
você acharia que ela estivesse mentindo. Vinterberg mostra de uma forma sutil,
mas ao mesmo tempo tensa, o desenvolvimento da injusta decadência moral do
protagonista. O ator Mads Mikkelsen está formidável como Lucas, mesclando seus
momentos de sofrimento com seus momentos de revolta de uma forma intensa e memorável. São angustiantes as cenas onde vemos ele ter
que lidar com aquela complicada situação a sua volta. A pequena Annika
Wedderkopp, intérprete da garotinha Klara, também está brilhante. Ela consegue
passar a infantil interpretação dos fatos que foram consequências de sua
mentira. Crianças não conseguem medir o peso de suas palavras e no filme isso gerou uma situação desastrosa.
A direção e o roteiro de Thomas Vinterberg estão impecáveis.
Mesmo com diálogos diretos e concisos, o filme não deixa a tensão de lado. O
enquadramento das cenas se preocupa em favorecer o olhar dos personagens, especialmente o de Lucas, nos
mostrando o quão devastado ele está por
dentro e por fora. A ausência de uma
trilha sonora em muitos momentos ajuda no desenvolvimento cru e real daquela
história.
“A Caça” é o segundo filme que vejo com direção de Thomas
Vinterberg (um dos fundadores do movimento Dogma 95), portanto não posso fazer nenhum paralelo entre este filme e suas demais obras,
mas posso afirmar que a sua competência como diretor nesse filme é extraordinária. Em
relação à Mads Mikkelsen, venho acompanhando sua carreira há algum tempo (especialmente na série Hannibal) e ele
é sem dúvida um dos melhores atores dessa geração.
Falar de pedofilia não é fácil, seja no cinema ou em
qualquer outro tipo de arte e/ou mídia. Um tema que sempre está presente nas
diversas esferas sociais e políticas é retratado de forma impactante e corajosa por Thomas Vinteberg. A inocência de uma pessoa não é o bastante para tirar uma
mancha pintada erroneamente pela sociedade. E o desfecho de “A Caça” demostrou isso. A cena final numa espécie de cliffhanger nos fez questionar se todos daquela cidade inocentaram o protagonista.


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