4 de setembro de 2015

Crítica: Garota Exemplar (Gone Girl, 2014)

    

Sempre que fico sabendo de um projeto assinado por David Fincher, já começo a contar os dias para conferi-lo. Não apenas pelo fato de Fincher ser um de meus cineastas favoritos, mas sobretudo pela certeza de que terei uma experiência cinematográfica sem igual. A qualidade é uma marca registrada em seus filmes. Basta lembrar de thrillers como Seven e Zodíaco e dramas memoráveis como A Rede Social. Em Garota Exemplar (Gone Girl), Fincher mais uma vez nos presenteia com uma obra impactante, crua e minuciosamente bem orquestrada.
    
O filme não é um mero thriller sobre assassinato, mas uma excelente mistura de drama policial com estudo de relacionamentos. Fincher e a roteirista Gillian Flynn, que também escreveu o romance do qual o filme foi adaptado, estão mais preocupados em mostrar as falsidades presentes em um casamento “perfeito” do que apenas nos dar pistas e detalhes de um crime. O diretor e a roteirista pintam o casamento como um verdadeiro jogo.
    
Nick Dunne (Ben Affleck), é, sem trocadilhos, um parceiro super-herói: charmoso, carismático e bonito. Ele escreve para uma revista masculina como ser o "cara perfeito". Mas para um cara perfeito, precisamos de uma garota perfeita. Conhecemos Amy Elliott Dunne (Rosamund Pike), uma linda escritora de livros infantis, cheia de classe, mas que mantém um senso de humor. Desde criança, Amy foi considerada a garota ideal, a Amazing Amy, título esse que nomeou a personagem de seus livros infantis. No quinto aniversário de casamento dos dois, Amy misteriosamente desaparece. Nós passamos a conhecê-la através de seu diário que está sendo lido para nós ao longo do filme. A mídia representada pelo jornalismo sensacionalista, não apenas suspeita que Nick é o responsável pelo sumiço de sua esposa, mas rapidamente demoniza-o como assassino, sociopata, e um possível praticante de incesto.

    
Um dos muitos méritos de “Garota Exemplar” está na estrutura do roteiro escrito por Flynn, nos intrigando ao oferecer os dois pontos de vista para os acontecimentos da narrativa: o de Nick mostrado durante o dia-a-dia das buscas pela esposa, e o de Amy representado pela narração em off de trechos de seu diário. A narrativa torce e destorce seus protagonistas, fazendo o expectador variar em suas opiniões sobre cada um ao longo do filme. Ora torcemos pela inocência de Nick, ora o chamamos de canalha. Mas vou parar com certos detalhes da trama já que o maior prazer deste filme é descobrir cada reviravolta com olhos desavisados.

Fincher e Flynn, mostram ser uma das melhores duplas de diretor-roteirista em anos. Em um romance policial, estamos acostumados ao tapete sendo puxado debaixo de nós e em Garota Exemplar isso vai além. O resultado é um dos filmes mais surpreendentes do ano passado e Fincher faz questão de chamar a atenção para algumas coisas. Por um lado, ele satiriza o jornalismo que hoje muitas vezes beira ao sensacionalismo. Por outro lado, Fincher e Flynn fazem com que todos sejam suspeitos e que o expectador não consiga desvendar os mistérios facilmente.


O elenco é outro grande mérito do filme. Ben Affleck tem aqui sua melhor performance até agora. Nick Dunne é o papel perfeito pra ele. Sua dificuldade em sorrir naturalmente e sua falta de expressão em alguns momentos são os atributos perfeitos para este personagem. Enquanto Affleck é sutil, Rosamund Pike se entrega de corpo e alma numa personagem vestida por camadas e camadas de mistério. Certamente esse é o papel da carreira de Pike e que a fez ser indicada ao Oscar. Fincher surpreende ao escalar seu elenco de apoio, trazendo nomes famosos da comédia como Tyler Perry e Neil Patrick Harris em atuações super convincentes, além das ótimas Kim Dickens e Carrie Coon e de Patrick Fugit (o eterno garoto de “Quase Famosos”).
   
Em mais uma colaboração com Fincher, o editor Kirk Baxter, o diretor de fotografia Jeff Cronenweth e os compositores Trent Reznor e Atticus Ross fazem dos elementos técnicos outros personagens da trama. A edição é espetacular do primeiro ao último frame e a fotografia exalta todo aquela atmosfera melancólica que circunda os personagens. A trilha de Reznor e Ross complementam o tom crescente de tensão ao utilizar instrumentos diferentes para compor faixas sonoras.
    
No 10º filme de sua carreira, David Fincher atinge o equilíbrio brilhante de encontrar um novo território, mesclando o thriller com o drama e toques de humor ácido. Se sua carreira tem sido uma série de pinceladas que pintam um retrato da alma decadente da sociedade, “Garota Exemplar” é um dos mais audaciosos (e um dos mais divertidos também).


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