31 de julho de 2015

Crítica: Bling Ring - A Gangue de Hollywood (The Bling Ring, 2013)


    Chanel, Balmain, Miu Miu. Paris Hilton, Lindsay Lohan, Miranda Kerr.  Esses são alguns dos nomes citados em várias cenas  de "Bling Ring – A Gangue de Hollywood”, o mais recente filme da cineasta Sofia Coppola.
    Baseado no artigo “The Suspects Wore Louboutins” escrito pela jornalista Nancy Jo Sales e publicado na revista Vanity Fair, “The Bling Ring” traz à tona todo o universo da futilidade exacerbada que fascina muitos jovens. O filme é inspirado em fatos reais e conta a história de um grupo de adolescentes de Los Angeles que invadiam as casas de vários famosos de Hollywood, roubavam deles roupas, acessórios, jóias e dinheiro e saíam por aí ostentando os seus “ganhos” e publicando fotos em redes sociais. E detalhe: esses adolescentes vinham de famílias com perfeitas condições financeiras.
    O filme tem início com trechos da entrevista de Marc (interpretado por Israel Broussard) e Nicki (vivida por Emma Watson) respondendo perguntas à fotógrafos e jornalistas e em poucos minutos voltamos um ano antes para conhecermos os fatos ocorridos. Marc acaba de entrar numa nova escola e por não se achar atraente, ele não consegue se enturmar facilmente. É então que aparece Rebecca (Katie Chang) que logo fica amiga dele e mostra os seus pequenos “dons” em furtar objetos e dinheiro em carros alheios. Marc passa a ajudá-la nos furtos e conhece outras garotas: Chloe (Claire Julien), Nicki (Emma Watson) e Sam (Taissa Farmiga). Do furto em carros elas passam a invadir casas, principalmente, casas de celebridades. Entre as vítimas estão a socialite Paris Hilton, a atriz Lindsay Lohan e o casal Orlando Bloom e Miranda Kerr.
    A diretora Sofia Coppola explora o fascínio que grande parte da juventude nutre pelo “lifestyle of rich and famous” e faz uma ode à ostentação. Porém, dentro dessa temática está a simples, mas profunda, crítica ao culto desse estilo de vida . O sentimento de que são invencíveis e inatingíveis estão presentes nesses personagens. Rebecca, Marc, Nicki, Sam e Chloe não se cansam em roubar as roupas de grife e joias de seus ídolos até o momento em que são descobertos pela polícia e pela mídia.
    Para dar um tom mais real e até documental ao filme, o roteiro utiliza uma linguagem simples e até próxima dos jovens, mas também utiliza expressões comuns usadas por garotas fúteis que apenas valorizam grifes famosas.


    Se em “As Virgens Suicidas” Sofia mostra pais opressores, em “The Bling Ring” ela traz pais ausentes e uma mãe superficial, que não procuram saber o que os filhos fazem fora de casa e acreditam em tudo o que eles dizem.
    O vazio existencial é um tema recorrente na filmografia de Sofia Coppola, mas ela nunca repete esse sentimento da mesma forma. Basta lembrar de seus filmes anteriores e enxergar isso através de seus personagens. As irmãs em “As Virgens Suicidas” cansadas da educação repressora que recebem; o personagem de Bill Murray em “Encontros e Desencontros” e o de Stephen Dorff em “Um Lugar Qualquer”, ambos cansados da fama. Mas esse vazio existencial ela também retrata no exagero do luxo como vemos em “Maria Antonieta” e agora em “The Bling Ring”.
    As performances dos cinco jovens atores estão bastante satisfatórias e eles  conseguem de maneira realista interpretar esses “ladrões de famosos”. O iniciante ator Israel Broussard é um dos que mais se destacam e seu personagem (Marc) é o mais interessante da história, talvez por ele se o mais puro e por ter sido corrompido pela sua melhor amiga e por ser o único que não demonstra falsidade no grupo. Ele demonstra gostar realmente de suas amigas. As garotas além de falsas, são extremamente cínicas, principalmente Rebecca e Nicki. Esta que vem a público afirmar que o escândalo dos roubos serviu para fazê-la crescer como pessoa e desejar um dia ser a líder de um país. Emma Watson encarna muito bem essa personagem cínica (e muito sensual) que nem parece a certinha Hermione da saga “Harry Potter”. Ela não é a líder da “gangue”, mas se torna a coadjuvante de maior destaque.
    A ótima trilha sonora é recheada de hip-hop (com nome  como Kanye West e M.I.A.) e músicas da banda indie pop Phoenix. Uma das músicas (Bad Girls da M.I.A) que a personagem Chloe canta e acompanha no rádio diz as seguintes palavras: “Live fast, die young. Bad girls do it well”. Um pequeno detalhe muito bem pensado por Sofia. 
    “The Bling Ring" não é o melhor filme de Sofia Coppola pelo fato da temática ser menos complexa em comparação com seus filmes anteriores, mas vale a pena assisti-lo.
    Um mundo onde a fama é mais importante que o caráter e onde muitas famílias não impõem limites a seus filhos, Sofia põe em questão: até onde isso pode interferir no comportamento dos adolescentes?
    E se no decorrer do filme via-se sutilmente uma crítica social, no fim ela é estampada na sua cara quando o personagem Marc diz à entrevistadora:  “É incômodo que tantos me adorem por algo tão odiado pela sociedade. Se fosse por algo que beneficiasse a comunidade ou algo parecido, eu adoraria. Mas isso demonstra que a América tem um fascínio mórbido pela coisa de Bonnie e Clyde.”  Essa definitivamente é uma verdade que precisamos ouvir.

30 de julho de 2015

Crítica: Nebraska (2013)


    Se existe um diretor que sabe tratar de assuntos comuns de forma tão extraordinária, este é Alexander Payne. Com uma lista ainda pequena de longas-metragens (mas, há vários anos na estrada cinematográfica), Payne possui uma visão intimista e ao mesmo tempo complexa sobre temas inerentes à vida. Casamento, família, cumplicidade, envelhecimento. Tudo isso é aproximado ao máximo para a vida real nas mãos desse brilhante cineasta.
    Em “Nebraska”, o veterano Bruce Dern encarna Woody Grant, um homem idoso que sofre de problemas de memória e acredita ter ganhado 1 milhão de dólares ao receber uma carta lhe informando sobre o prêmio. A sua maior vontade é ir até a cidade de Lincoln no estado de Nebraska, a fim de trocar a carta pelo prêmio e para isso ele ganha a companhia de seu filho David (interpretado por Will Forte) na viagem até o destino desejado.  Contudo, essa não é apenas uma simples viagem, mas uma verdadeira jornada de conhecimento recíproco entre pai e filho. David nunca esteve tão próximo do pai e essa inesperada aproximação trouxe à tona novas descobertas sobre o passado daquele que cuidou (ou deixou de cuidar) da esposa e dos filhos. A visão que temos de Woody, é que ele nunca foi um pai e marido perfeitos. Seus problemas com alcoolismo no passado justificam o cansaço sentido pela sua esposa, Kate (interpretada pela excelente e cativante June Squibb), em aturar a semi-demência do marido.
    Assim como em “Sideways”(2004), Alexander Payne repete aqui a narrativa do bom e velho road movie. Nós, espectadores, seguimos viagem com aqueles personagens e nos vemos tão próximos deles a ponto de sentirmos identificação com os mesmos. A vida pacata da família Grant é semelhante à  de muitas famílias mundo afora. E é por isso que Nebraska se destaca ao contar uma história de gente como a gente.  De pessoas de carne e osso que não vivem uma história idealizada e cheia de clichês melodramáticos.
    O ótimo roteiro escrito por Bob Nelson possui uma linguagem simples e levemente cômica, traçando um paralelo entre a importância da cumplicidade em família com os prejuízos causados pela crise americana de 2008. Muitos americanos de classe média veem-se até hoje afetados pela crise econômica, especialmente os moradores daquela região mostrada no filme. Há cenas que evidenciam as tentativas de alguns personagens em sair da crise. Ao descobrir que Woody está “milionário”, vários familiares tentam se aproveitar pedindo dinheiro ou cobrando dívidas há muito esquecidas. O mesmo vale para o antigo amigo e sócio, Ed Pegram (Stacy Keach), outro que tenta tirar proveito da situação de Woody. Quando citei a cumplicidade familiar, quis dizer que mesmo com as diferenças vividas nas relações marido/esposa e pai/filho, estes se unem para defender uns aos outros.


     Sem dúvida, uma das características mais chamativas do filme é sua bela fotografia em preto em branco. O trabalho exemplar de Phedon Papamichael transforma a fotografia e o cenário em personagens.  A preocupação do diretor de fotografia  e do próprio Alexander Payne  é mostrar os problemas daquele microcosmo familiar usando a falta de cores como uma das ferramentas. A realidade é, antes de tudo, crua e não possui cor. O uso do preto e branco foi uma escolha acertada. O mesmo vale para a ótima trilha sonora embalada por um country melancólico composto por Mark Orton.
    Outra escolha mais que acertada em “Nebraska”, é o seu competente elenco. Bruce Dern, que foi premiado em Cannes e indicado ao Oscar por esse filme, apresenta uma performance brilhante que marca o seu retorno como um grande protagonista. Ele demonstra em Woody a fragilidade da velhice e ao mesmo tempo  a determinação  de seguir adiante. June Squibb (também indicada ao Oscar) é encantadora e cativante e protagoniza as cenas mais hilárias do longa. A grata surpresa do filme foi assistir Will Forte num papel sensível e melancólico. Ele que é famoso por ser comediante do Saturday Night Live, consegue com muita ternura e competência interpretar o filho David. Este, que vê a importância de cuidar e passar mais tempo com seu pai, mas que também teme em ter um futuro semelhante ao dele.
    Preciso confessar que este foi um dos filmes de 2013 que mais tocou o meu coração. Me fez refletir profundamente sobre o que de fato importa na vida familiar e na convivência com aqueles que nos criaram e nos formaram como pessoa.
    Mais que uma celebração à família, “Nebraska” é um conto que expõe de forma simples e realista, uma América sem esperanças  e o filme configura-se como um dos road movies mais cativantes dos últimos anos.

29 de julho de 2015

Crítica: Ela (Her, 2013)


    A tecnologia já se tornou algo inerente ao mundo em que vivemos. Desde a Revolução Industrial e principalmente com a Revolução Técnico-Científica, os avanços tecnológicos passaram a fazer parte da rotina de nossas vidas. Mas será que hoje essa tecnologia tem grande influência sobre nossos relacionamentos ou isso é apenas coisa para se pensar em um futuro não muito distante? Para mim ela já está difundida em nosso meio, afinal, vivemos na era das redes sociais. Mas, em “Ela” (Her, 2013), o mais recente filme do cultuado diretor e roteirista Spike Jonze, essa influência tecnológica atinge proporções maiores e por incrível que pareça de uma forma bem profunda.
    Num futuro não determinado, Spike Jonze nos apresenta uma Los Angeles onde a tecnologia está em toda parte. E é nesta futura Los Angeles onde vive Theodore (Joaquin Phoenix), um homem melancólico e recém-separado daquela que ele imaginava ser a mulher de sua vida, Catherine (Rooney Mara). Mesmo com amigos ao seu redor, Theodore sente um vazio interno, a falta de alguém com quem possa compartilhar o amor. Contudo, as coisas mudam quando ele adquire uma novidade tecnológica criada para preencher esse vazio existencial. Trata-se de um sistema operacional inteligente capaz de se socializar com seu dono. E o SO de Theodore possui um nome e uma voz feminina: Samantha (voz de Scarlett Johansson). Aos poucos a relação dos dois cresce de forma gradual e sensível a ponto de florescer um amor entre eles.
    Através de um roteiro escrito por ele próprio, Spike Jonze nos permite conhecer uma história de amor fora dos padrões convencionais. O romance entre Theodore e Samantha é desenvolvido sutilmente com uma originalidade tão palpável, que nos faz acreditar que o futuro possa de fato, ser daquele jeito. Em “Ela”, Jonze põe em questão: Será que um Sistema Operacional com todo o seu intelecto virtual pode ter sentimentos reais? Pode se apoderar desses sentimentos e construir uma personalidade própria? Samantha é a prova de que naquele universo melancólico, uma inteligência artificial dentro de um computador consegue ser mais humano que muitas pessoas de carne e osso. Ela ri com naturalidade, suspira, percebe quando alguém está triste. E todo o mérito da personagem está no trabalho de voz realizado por Scarlett Johansson. Ao emprestar sua voz ao Sistema Operacional, Scarlett nos convence que Samantha possui alma e que o desenvolvimento da personagem é orgânico e real. 


    Outro ponto forte do filme é a performance brilhante de Joaquin Phoenix. Depois de seu trabalho anterior vivendo um intenso personagem em “O Mestre” de Paul Thomas Anderson, em “Ela” Phoenix incorpora um Theodore melancolicamente fofo, mas complexo ao mesmo tempo. O personagem autoanalisa seu caráter e personalidade justificando que nós somos aquilo que construímos dentro de nossos relacionamentos afetivos e sociais, sejam num casamento ou em um namoro não convencional.
    Os coadjuvantes do filme também estão bastante competentes em suas participações: Amy Adams e Chris Pratt como os amigos essenciais à vida de Theodore; Rooney Mara como a ex-esposa  Catherine; e Olivia Wilde como uma mulher que tem um encontro romântico com Theodore. Vale lembrar as inusitadas participações de Kristen Wiig e do próprio diretor Spike Jonze emprestando suas vozes à SexyKitten e ao pequeno alien do videogame de Theodore respectivamente.
    A fotografia assinada por Hoyte Van Hoytema  é de encher os olhos de tão bonita. O uso de cores neutras com tons de rosa e vermelho entra em sintonia com o desenvolvimento das relações vividas por Theodore. A trilha sonora original composta pela banda indie Arcade Fire (da qual sou fã) é suave e  tornando o filme mais agradável e sensível do que já é. E o que dizer da linda música “The Moon Song” composta por Karen O. e Spike Jonze?! A cena do dueto entre Samantha e Theodore cantando essa música é um dos momentos mais sentimentais do filme.
    E sentimento é o que não falta em “Ela”. Desde o seu interessante roteiro às performances de seu elenco, Spike Jonze nos presenteia com um longa que traz emoções e ao mesmo tempo questionamentos sociais. Com cinco indicações ao Oscar 2014 (melhor filme, roteiro original canção original, trilha sonora original e design de produção) , “Ela” já nasceu com potencial para ser um futuro clássico cult.
    E parafraseando a personagem de Amy Adams: “Apaixonar-se é uma forma de insanidade socialmente aceitável”.  Existe algo mais verdadeiro que isso?  Seja no presente ou no futuro, o amor é igual nas suas diferentes formas. Até mesmo o amor por uma inteligência artificial. Mas Samantha não é artificial. Samantha é naturalmente real.

Crítica: Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are, 2009)


 
    
    Um projeto que retrata os anseios infantis de uma maneira peculiar e que exige um certo grau de sensibilidade aguçada de seu expectador, certamente é um trunfo na carreira de um cineasta. Em 2009, o diretor Spike Jonze adaptou para as telonas o livro infantil Onde Vivem os Monstros escrito por Maurice Sendak. O livro voltado exclusivamente para as crianças, possui muitas ilustrações e pouco texto. Entretanto, Jonze (com a benção do próprio Maurice), criou em seu filme um roteiro complexo e cheio de nuances sobre essa fase da vida e seus conflitos.
    Em Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are), conhecemos Max, um garoto solitário, com uma imaginação fértil e dono de uma pequena rebeldia por não se sentir o centro das atenções em sua família. Chateado com sua irmã mais velha e com a presença do namorado de sua mãe, Max veste sua fantasia de lobo e foge para um universo próprio habitado por criaturas selvagens. Lá ele é coroado rei e promete afastar toda a tristeza que possa afligir seus novos amigos.
    No decorrer da narrativa, percebemos a pureza que existe no escapismo imaginativo de uma criança. O seu mundo de monstros serve perfeitamente como um lugar onde ele se sente protegido. Mas também, um lugar onde ele finalmente se torna o centro das atenções, afinal, agora ele é o rei das criaturas selvagens. Mesmo em meio a um tom onírico, Jonze nos mostra uma verdadeira jornada de amadurecimento pela qual Max percorre. Aos poucos, o garoto percebe o quanto é difícil manter a união na sua pequena sociedade de monstros e ao mesmo tempo vai descobrindo a importância que essa experiência trouxe para enfim voltar para casa. Cada uma das criaturas é uma parte de Max, cada uma representa os sentimentos intrínsecos que moram na psique infantil.

    A transição do mundo real para o mundo fantasioso é feita de forma bastante orgânica, passando do uso da câmera na mão enquanto acompanhamos o garoto enfurecido e triste dentro de casa para uma fotografia exuberante naquele mundo exótico e cheio de seres animalescos. (Jonze optou pela fidelidade às ilustrações presentes no livro escrito por Sendak). Aliás, o uso de bonecos em vez de computação gráfica, conferiu uma maior realidade à imaginação do pequeno Max, fazendo com que o expectador se sentisse mais próximo da relação construída entre o garoto e seus novos amigos. E quando vemos a relação entre o garoto e o monstro Carol, percebemos o quanto os dois são parecidos quando se trata de raiva e abandono.
    Spike Jonze fez questão de criar pequenas e delicadas cenas em que uma epifania vem à mente do garoto. Como a cena onde Max está escondido dentro da criatura KW e a partir daí vemos um maior amadurecimento nas atitudes infantis dele. Momento este que firma sua decisão de voltar pra casa e finalmente entender os sentimentos de sua mãe.
    O cenário lúdico e fantasioso enaltecido pela bela fotografia soma-se à doce trilha sonora composta por Carter Burwell em parceria com a cantora Karen O. para ampliar a essência da infância tão brilhantemente retratada no longa. A essência da fase mais importante da vida. A essência da construção da nossa personalidade. Afinal, ser criança é deixar sua imaginação fluir e descobrir os pequenos monstros essenciais que vivem dentro de nós.

28 de julho de 2015

Crítica: A Caça (Jagten, 2012)


    O cinema europeu sempre consegue contar uma boa história sobre temas polêmicos e delicados, coisa que poucas vezes vemos Hollywood fazer.
    O drama “A Caça” (Jagten no título original), dirigido pelo dinamarquês Thomas Vinterberg, é um desses filmes que mexem com nossos sentimentos, nos colocando ao mesmo tempo em lados opostos da mesma moeda. Confesso que nunca me senti tão angustiada vendo um caso de injustiça sofrida por um personagem e você não poder fazer nada para ajudá-lo. Esse é o grande trunfo trazido por Vinterberg: saber a verdade da inocência de um personagem, se importar imensamente por ele a ponto de querer entrar no filme e ajudar a resolver a situação.
    Mas vamos aos fatos. A história do filme se passa numa pequena comunidade onde mora Lucas, um professor de uma creche e que se dá bem com todo mundo, é rodeado de amigos e sua gentileza é visível a partir da primeira cena. Ele acaba de passar por um divórcio e quer que seu filho venha morar com ele.  Contudo, ele é acusado de um crime terrível: pedofilia. A pequena Klara, filha de seu melhor amigo e aluna da creche, conta à diretora que Lucas mostrou suas partes intimas à ela. Achando difícil uma criança inventar algo desse tipo, a diretora passa a acreditar que Lucas é um pedófilo e é a partir daí que se desencadeia uma acusação contra ele e que manchará sua reputação perante à comunidade.
    Nós, espectadores, sabemos desde o início que Lucas é inocente. Sabemos que ele nunca cometeu nenhum tipo de abuso sexual contra uma criança. Mas o filme tem o objetivo de nos mostrar os dois lados da história: o acusado inocente e os acusadores. A caça e os caçadores.


    É compreensível a atitude daquela comunidade ao se revoltar com o suposto crime. Coloque-se na pele dos pais da garotinha. Dificilmente você acharia que ela estivesse mentindo. Vinterberg mostra de uma forma sutil, mas ao mesmo tempo tensa, o desenvolvimento da injusta decadência moral do protagonista. O ator Mads Mikkelsen está formidável como Lucas, mesclando seus momentos de sofrimento com seus momentos de revolta de uma forma intensa e memorável. São angustiantes as cenas onde vemos ele ter que lidar com aquela complicada situação a sua volta. A pequena Annika Wedderkopp, intérprete da garotinha Klara, também está brilhante. Ela consegue passar a infantil interpretação dos fatos que foram consequências de sua mentira. Crianças não conseguem medir o peso de suas palavras e no filme isso gerou uma situação desastrosa.
    A direção e o roteiro de Thomas Vinterberg estão impecáveis. Mesmo com diálogos diretos e concisos, o filme não deixa a tensão de lado. O enquadramento das cenas se preocupa em favorecer o olhar dos personagens, especialmente o de Lucas, nos mostrando o quão devastado ele está por dentro e por fora.  A ausência de uma trilha sonora em muitos momentos ajuda no desenvolvimento cru e real daquela história.
    “A Caça” é o segundo filme que vejo com direção de Thomas Vinterberg (um dos fundadores do movimento Dogma 95), portanto não posso fazer nenhum paralelo entre este filme e suas demais obras, mas posso afirmar que a sua competência como diretor nesse filme é extraordinária. Em relação à Mads Mikkelsen, venho acompanhando sua carreira há algum tempo (especialmente na série Hannibal) e ele é sem dúvida um dos melhores atores dessa geração.
    Falar de pedofilia não é fácil, seja no cinema ou em qualquer outro tipo de arte e/ou mídia. Um tema que sempre está presente nas diversas esferas sociais e políticas é retratado de forma impactante e corajosa por Thomas Vinteberg. A inocência de uma pessoa não é o bastante para tirar uma mancha pintada erroneamente pela sociedade. E o desfecho de “A Caça” demostrou isso. A cena final numa espécie de cliffhanger nos fez questionar se todos daquela cidade inocentaram o protagonista.

27 de julho de 2015

Crítica: Antes da Meia-Noite (Before Midnight, 2013)


    Em 1995, o cinema apresentou ao mundo um dos casais mais amados pelos apreciadores da sétima arte. Estou falando de Jesse e Celine, interpretados por Ethan Hawke e Julie Delpy respectivamente e protagonistas de uma trilogia que ficará marcada para sempre como uma verdadeira obra-prima cinematográfica.
    No primeiro filme, “Antes do Amanhecer”, o diretor Richard Linklater nos mostra o momento em que Jesse e Celine se conhecem e se apaixonam. De uma forma primorosamente natural, nós assistimos o amor dos dois florescer pelas ruas de Viena na Áustria. Nove anos depois, em 2004, Linklater lança “Antes do Pôr-do-Sol” e o cenário é a deliciosa Paris, lugar onde os personagens se reencontram por acaso e discutem através de diálogos belíssimos os diferentes rumos que a vida proporcionou aos dois. Durante os nove anos que passaram longe um do outro, Jesse virou escritor e entrou em um casamento infeliz e Celine investiu em uma vida profissional que lhe garantisse sua independência.
    Mais 9 anos se passam e eis que em 2013 veio o maravilhoso “Antes da Meia-Noite” e sentimos aquela felicidade em saber que Jesse e Celine aparecem juntos e com duas filhas gêmeas. Assim como nos dois filmes anteriores, “Antes da Meia-Noite” é composto de diálogos inteligentes e extremamente naturais que nos fazem se importar com aquela história e com aqueles personagens. O roteiro escrito pelo diretor Richard Linklater juntamente com os protagonistas Julie Delpy e Ethan Hawke já explica o tom mais maduro e humano do longa. Depois de tantos anos juntos, os três realizadores do filme estão em sua mais alta sintonia e isso reflete magistralmente em suas performances e na direção.


    Dessa vez  a história se passa na Grécia, onde Jesse e Celine passam seus últimos dias de férias ao lado das filhas e de outros casais amigos. A escolha do lugar para servir de cenário ao filme foi muito bem pensada. Em meio às ruínas gregas, vemos o relacionamento de um casal entrar aos poucos em desgaste, afinal, eles se encontram em uma fase difícil da vida: a aproximação da crise da meia-idade. Assim como na vida real, Jesse e Celine também possuem dúvidas acerca de uma relação duradoura e se aquela paixão ainda permanece acesa.
    O clímax do filme é de uma naturalidade impecável, mas cruel e verdadeiro ao mesmo tempo. É dentro de um quarto de hotel que acontece o momento mais duro e sufocante da trilogia inteira. Quando Jesse e Celine estão prestes a ter uma romântica noite, basta apenas um pequeno detalhe para uma discussão aparecer. E é aí que reside a aproximação com a vida real. Sem qualquer tipo de clichê idealizado, em “Antes da Meia-Noite” assistimos as preocupações que casais reais possuem. É o filho do casamento anterior que está crescendo distante do pai, é o marido que trabalha muito e quase não está em casa, é a esposa que gostaria de ter mais tempo livre para ela mesma e tantos outros problemas que também afetam as pessoas comuns.
    A construção e o desenvolvimento dessa cena são lindos! Optar por mostrar os seios de uma forma não sensual, mas puramente natural é algo que não vemos com frequência no cinema americano. Julie Delpy atinge nessa longa cena uma atuação formidável e honesta e para mim digna de indicação a Oscar. Ethan Hawke, também muito talentoso, consegue transpor para as telas um Jesse mais velho e maduro, mas que ainda possui aquele mesmo amor jovial de 18 anos antes.
    A história de Jesse e Celine é orgânica, real, honesta com seu espectador e o belo desfecho de “Antes da Meia-Noite” nos deixa com aquele gostinho de querer ver no futuro mais um capítulo dessa história.

26 de julho de 2015

Crítica: A Espuma dos Dias (L'écume des jours, 2013)


    Uma Paris surrealista. Essa poderia ser a descrição do cenário em “A Espuma dos Dias” (“L’Écume des Jours” no título original), filme do diretor francês Michel Gondry (de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”). 
    Adaptação do livro “L’Écume des Jours” escrito por Boris Vian, o filme conta a história de Colin (vivido por Romain Duris), um homem muito rico que vive em uma casa cheia de artefatos malucos que ganham vida e leva uma vida sem trabalho e sem estresse ao lado dos amigos Nicolas (Omar Sy) e Chick (Gad Elmaleh). Quando ele percebe que seus amigos encontraram as mulheres ideiais, Colin decide se apaixonar também e é aí que encontra a encantadora Chloé (interpretada pela linda Audrey Tatou) com quem pouco tempo depois se casa. Na sua lua-de-mel, Chloé adoece e dias depois descobre-se que uma flor está crescendo em seu pulmão e causando a doença. A partir daí, Colin muda sua vida para apenas viver em função da cura de sua amada.
    É fato que o diretor Michel Gondry adota uma boa dose de surrealismo na maioria de seus filmes e vemos isso no maravilhoso “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” de 2004. Mas em “A Espuma dos Dias” ele exagera um pouco na dose e vê a necessidade de pôr em cada cena objetos ganhando vida ou flutuando. Talvez no livro isso funcionasse de uma forma mais convincente, mas no longa, esse exagero parece não ter muito sentido. O maior sentido que vejo no uso deste atributo é metaforizar o estilo de vida do protagonista: uma vida cheia de riquezas materiais.


    É inegável que o uso de muitas cores no início do filme casa perfeitamente com a felicidade inicial de Colin e do encontro com o seu grande amor, Chloé. Mas à medida que a doença de Chloé vai avançando e a vida de Colin vai perdendo seu brilho, ele vai afundando em uma profunda tristeza na tentativa de salvar a mulher que ama e, portanto o filme passa a ser mais melancólico. E essa melancolia traz ao filme a mudança nas cores que antes eram vivas e agora são mais tristes e acinzentadas até chegar ao ponto do filme adquirir o tom preto e branco.
    A trilha sonora é embalada por um jazz com canções de Duke Ellington, cantor que é várias vezes citados ao longo do filme.
    Audrey Tatou aparece adorável como sempre e Romain Duris incorpora muito bem seu protagonista, mesclando seus momentos de alegria e seus momentos de tristeza. O simpaticíssimo ator Omar Sy também está muito bem, repetindo o seu talento de atuar como já vimos antes no famoso “Intocáveis” de 2011.
  A Espuma dos Dias não é seu melhor filme, mas mesmo assim Michel Gondry trouxe uma produção bela e metafórica. 

25 de julho de 2015

Crítica: Moonrise Kingdom (2012)

   
     
     
      Todos nós já vimos filmes que tratam de amor juvenil, do primeiro amor e tantos outros temas derivados. “Moonrise Kingdom” nos mostra uma história desse gênero, mas de uma forma completamente diferente do que você já viu antes. A partir da primeira cena, podemos de imediato identificar que se trata de um filme de Wes Anderson. A simetria dos planos de câmera e o uso proposital de muitas cores tanto na fotografia como no ambiente e figurino dos personagens já é uma marca registrada na filmografia de Anderson. A presença recorrente de um narrador também é algo comum em muitos de seus filmes.
     O roteiro indicado ao Oscar 2013 e escrito por Roman Coppola em parceria com Anderson nos leva ao ano de 1965 em uma ilha afastada e situada na Nova Inglaterra. É lá que vivem a família de Suzy Bishop (Kara Hayward), uma garota de 12 anos que adora ler seus  livros de aventura. Nessa mesma ilha, um grupo de pequenos escoteiros comandados pelo Escoteiro-Chefe (Edward Norton) estão acampando e fazendo seus treinamentos corriqueiros. Sam Shakusky (Jared Gilman) é um desses escoteiros, mas é um garoto diferente e mal-entendido pelos demais colegas. Ele conhece Suzy em uma peça de teatro e a partir daí os dois trocam cartas de amor e planejam fugir juntos para viverem uma aventura longe de todos que não os entendem. O que eles não esperavam era a busca incansável liderada pelo policial da região (vivido por Bruce Willis).
     Wes Anderson sempre aprecia em nos contar histórias de famílias excêntricas e muitas vezes desconexas. A família Bishop é uma dessas. Os pais de Suzy (vividos por Bill Murray e Frances McDormand ) não conseguem entender o comportamento da filha e isso faz com que eles mesmos não mais se entendam. Entretanto, o tema central do longa é a descoberta do primeiro amor contada de forma tão delicada e pura e, ao mesmo tempo, aventuresca. Sam e Suzy querem apenas viver em um paraíso só deles, sem ninguém para julgá-los  e atormentá-los.


    Não há espaço para o “desabrochar” da sexualidade. Aqui, Anderson está preocupado em desenvolver um desejo pueril que faz com que Sam e Suzy nunca mais queiram ficar longe um do outro, mesmo com os obstáculos enfrentados por ambos.
    Os jovens atores estreantes, Jared Gilman e Kara Hayward estão impecáveis nos papéis de Sam e Suzy. Ambos conseguem manter uma química tão entusiasmada e fofa que contagia qualquer espectador. O elenco adulto e já veterano da sétima arte também mandam muito bem com seus personagens. Edward Norton, Bruce Willis, Bill Murray e Frances McDormand  compartilham momentos divertidíssimos  em cena. É bom ver Bruce Willis longe daqueles típicos personagens de ação, nos mostrando um visual bastante diferente do que ele é acostumado a usar em grande parte de seus filmes. As participações especiais de Tilda Swinton e Jason Schwartzman também são muito bem vindas à história. A narração de Bob Balaban explicando as partes que compõem a sinfonia de uma orquestra faz bastante sentido se tomarmos como uma metáfora da família.      

    A trilha sonora assinada pelo francês Alexandre Desplat acrescenta um tom mais lúdico ao longa, com músicas que casam perfeitamente com a aventura bucólica do nosso jovem casal  de apaixonados. E como eu disse no início, a fotografia e o uso de cores intensas misturadas com tons pastéis são atributos perfeitos para um filme tão peculiar. Assim como em “O Fantástico Sr, Raposo”, Wes Anderson nos convence que uma fábula ou aventura infantil cheia de diálogos ricos é uma diversão para os adultos apreciarem. E bem que a aventura vivida por Sam e Suzy poderia perfeitamente ter saído de um dos livros preferidos da garota. 

22 de julho de 2015

Crítica: As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower, 2012)



Nos últimos anos, o cinema independente tem se destacado em diversas premiações e festivais por várias razões: roteiros inteligentes e bem amarrados, uma boa escolha de elenco, direção competente, fotografia notável e é claro, uma trilha sonora intensa com muito rock/pop/folk, atributo indispensável em filmes indies. Todas essas características citadas estão presentes em “As Vantagens de Ser Invisível” (“The Perks of Being a Wallflower” no título original), filme adaptado do livro homônimo escrito por Stephen Chbosky. Além de ser o autor do livro, Chbosky também é o roteirista e diretor do longa, fato que torna o projeto o mais pessoal possível, valorizando cada personagem criado por ele próprio e explorando a densidade de um bom drama de amadurecimento.
Na história, Charlie (vivido pelo ator Logan Lerman) é um adolescente que está entrando no colegial, mas tem dificuldades de socialização por estar se recuperando de alguns traumas de sua vida como o suicídio de seu melhor amigo e a morte trágica de sua tia mais próxima. Na escola, ele conhece Sam e Patrick (vividos por Emma Watson e Ezra Miller), dois jovens extremamente divertidos e espontâneos que logo se simpatizam por Charlie e fazem questão de integrá-lo ao grupo de “desajustados” do qual fazem parte. Um ponto bastante interessante da trama é o fato de Charlie escrever diariamente cartas para um amigo que ele mesmo não conhece, mas isso funciona como uma necessidade interna de desabafar todos os seus sentimentos relacionados à sua família, aos seus novos amigos e ao seu trauma pessoal.


Logan Lerman conhecido pela franquia “Percy Jackson”, tem sua melhor atuação como Charlie, mostrando ser um ator esforçado e que sabe muito bem transpor para as telas um personagem tão delicado e difícil. Emma Watson, famosa por ter interpretado durante 10 anos a Hermione da saga “Harry Potter”, aparece radiante e adorável como Sam, fazendo o espectador se apaixonar por ela a partir do primeiro momento em que ela entra em cena. Para fechar o trio protagonista, temos o ótimo Ezra Miller, que nem parece o sombrio Kevin de “Precisamos Falar Sobre o Kevin”. Interpretando o personagem Patrick, Ezra prova ser um ator muito versátil e extremamente carismático.
A trilha sonora escolhida para o filme casa perfeitamente com o amadurecimento do protagonista. Como a trama se passa nos anos 90, bandas do cenário musical das décadas de 70 a 90 como New Order, Pavement, Sonic Youth, The Smiths e o icônico David Bowie só enriquecem o desenvolvimento do filme, tornando-o atrativo para várias gerações. Como não se emocionar ouvindo “Heroes” do Bowie nas duas maravilhosas cenas em que ela é tocada?! É para contagiar qualquer um que curte uma boa música.
Chbosky procurou ser o mais fiél possível ao seu próprio livro, criando um roteiro rico em diálogos interessantes entre os personagens, principalmente nas cenas entre Charlie e seu professor, Mr. Anderson (vivido pelo ator Paul Rudd), onde em uma delas há uma das frases mais brilhantes do longa: “Nós aceitamos o amor que pensamos merecer”. Depois de ouvir essa frase certamente o espectador vai passar a ter algumas reflexões acerca do amor, das amizades e da vida.
As Vantagens de Ser Invisível não é apenas um bom drama com temática adolescente, mas um filme feito para jovens, adultos e idosos se cativarem com a trajetória de auto-conhecimento de um garoto que se sentia deslocado e deprimido, mas que com a ajuda de verdadeiros amigos, consegue sentir a plenitude do que é viver intensamente, afinal, todos nós devemos nos sentir infinitos, assim como Charlie, Sam e Patrick.