24 de agosto de 2015

Crítica: Adeus, Lenin! (Good Bye Lenin!, 2003)

    

1988. Alemanha Oriental. O jovem Alexander Kerner (Daniel Brühl) participa de uma manifestação quando é agredido pela polícia. Sua mãe, Christiane Kerner (Kathrin Sass), ao ver aquilo, sofre um infarto e entra em coma durante meses. Durante o tempo que ela ficou desacordada, o país passou por mudanças políticas e o Muro de Berlim veio abaixo, marcando então o fim da divisão entre Alemanha Ocidental e Oriental. Christiane, uma grande defensora do Comunismo, acorda de seu coma, mas com a saúde bastante debilitada e o coração fraco. Seu filho Alex é então alertado pelo médico de que qualquer grande emoção ou choque pode ser fatal para o coração de sua mãe. Alex resolve utilizar sua criatividade para esconder da mãe as mudanças e a influência capitalista que atingiu a região oriental do país após a unificação. E para isso ele conta com a ajuda de sua irmã Ariane (Maria Simon ) e seu amigo Denis (Florian Lukas), um aspirante a cineasta.
    
Com essa premissa, “Adeus, Lênin!” (Goodbye, Lenin!)  já revela ao espectador uma história interessante e envolvente ambientada numa época complicada e de transição pela qual a Alemanha passou. Mais que um filme sobre um período histórico e importante, nós assistimos uma história de amor entre mãe e filho, que conta com muita delicadeza a dedicação e o carinho que aquele filho possui para com sua mãe.  O diretor Wolfgang Becker se despe de uma carga excessivamente melodramática para seguir um caminho contrário. Com muita sobriedade, ele aposta numa mistura de drama familiar com toques de humor inteligente para nos contar uma história tão bela e tão rica em reflexões sócio-políticas e ideológicas.
    
Wolfgang faz questão de mostrar ao público o quanto o fim do Comunismo atingiu a população da Alemanha Oriental, que após as transformações no país, via-se uma forma de "mudar de vida" com o fim do regime, mas em meio ao capitalismo e a concorrência com a população da ex-região ocidental, a grande maioria encontrava empregos menores. No filme, vemos a irmã de Alex se tornar uma atendente do Burger King e o próprio Alex como um vendedor de tv a cabo, ressaltando então que o capitalismo chegou imponente por lá, mas desfavoreceu a vida dos habitantes da antiga parte oriental do país.


Entretanto, em meio aos posicionamentos sociais, o diretor nos emociona e ao mesmo tempo nos diverte com as atitudes do jovem Alexander ao tentar esconder da mãe o fim do Comunismo no país. Com a ajuda de seu amigo Denis, Alex cria um telejornal falso que simula os noticiários da época anterior à queda do Muro e explica certos detalhes como o grande banner da Coca-Cola posicionado ao lado da janela do quarto de Christiane.
    
Se o filme já é envolvente pela sua premissa, ele passa a ser mais ainda graças ao excelente elenco encabeçado por Daniel Brühl e Katrin Sass. Brühl e seu exímio talento como ator, nos cativa primorosamente com o seu personagem Alexander e seu amor pela mãe. Katrin Sass interpreta perfeitamente a mãe, Christiane, e nos emociona com uma personagem tão forte e ao mesmo tempo sensível, que defende a todo custo o estilo de vida comunista. Os coadjuvantes Florian Lukas e Maria Simon também demonstram grande competência em cena como personagens essenciais ao plano de Alexander.
    
Além de uma direção bastante competente, o roteiro escrito por Wolfgang Becker em parceria com Bernd Lichtenberg também justifica a excelente qualidade do longa. ”Adeus, Lênin!” concorreu ao Globo de Ouro e ao BAFTA de melhor filme estrangeiro em 2004, além de ter sido premiado no Festival de Berlim e no César Awards. Prêmios mais do que justos para uma obra tão edificante. O cinema alemão é um pólo que sempre traz filmes relevantes e cineastas promissores que não precisam estar em Hollywood para serem apreciados pela comunidade cinéfila. E “Adeus Lênin!” é a soma de todas as melhores qualidades que o cinema germânico tem a oferecer. E acima de tudo, é uma abordagem histórica e reflexiva moldada através de uma bela história sobre a relação entre mãe e filho.
    

19 de agosto de 2015

Crítica: Trainspotting - Sem Limites (Trainspotting, 1996)



“Escolha viver. Escolha um emprego. Escolha uma carreira, uma família. Escolha uma televisão enorme. Escolha lavadora, carro, CD Player e abridor de latas elétrico. Escolha saúde, colesterol baixo e plano dentário. Escolha viver. Mas por que eu iria querer isso? Escolhi não viver. Escolhi outra coisa. Os motivos? Não há motivos. Quem precisa de motivos quando tem heroína?”.  É com esta frase marcante que inicia-se um dos filmes mais cultuados do cinema alternativo. Em 1996, o britânico Danny Boyle ousou lançar aquele que se tornaria o filme mais lembrado de sua carreira. “Trainspotting” é baseado no livro homônimo escrito por Irvine Welsh e conta as desventuras de Mark Renton (Ewan McGregor), um jovem do subúrbio de Edimburgo viciado em heroína que junto com seus amigos também viciados, se envolvem em golpes a traficantes.
    
Costurado por um roteiro ácido cheio de diálogos rápidos, Trainspotting passeia pelo cotidiano de um viciado, mostrando a fugacidade das consequências geradas por esse estilo de vida. Mas Danny Boyle não está disposto a julgar o uso de entorpecentes através de um “panfletarismo” careta e muito menos de fazer apologia às drogas. A proposta dele é mostrar um comportamento comum da “geração pub” dos anos 90 que ao negar uma vida hipócrita, certinha e pré-programada, decidia viver contra às regras. O discurso crítico e até niilista do protagonista Renton na cena inicial do longa, reflete o que movia muitos jovens dessa época. Escolher “não viver” ao invés de uma carreira ou uma vida normal fazia-os acreditar que estavam dentro de uma filosofia nova e libertadora, onde não há motivos para nada, apenas a maior curtição do mundo: a heroína. A heroína representava não um subterfúgio para os problemas da vida, mas sim a libertação dentro de uma sociedade de consumo.


Ao filmar de maneira deselegante e aleatória as desventuras de Renton e seus amigos Spud, Sick Boy, Tommy e Begbie, Danny Boyle opta por um jogo rápido de planos que casa perfeitamente com o estilo de vida destes personagens. Sem se preocupar com um estilo rebuscado visualmente falando, o diretor investe em simbologias interessantíssimas no decorrer de seus 94 minutos de longa. Simbologias que estão em cenas memoráveis como a cena do banheiro público onde Renton mergulha em uma privada para não perder seus supositórios de heroína e que podemos interpretar como a entrada numa vida onde só encontra-se merda; e a cena onde o mesmo após sofrer uma overdose, alucina estar afundando em um tapete como se estivesse entrando num caixão.
    
No seu primeiro papel de destaque no cinema, Ewan McGregor está espetacular, me arrisco até a dizer que esta é uma das suas maiores performances. Seus coadjuvantes também não ficam para trás. Jonny Lee Miller na pele de Sick Boy, Ewen Bremner como Spud e Robert Carlyle como Begbie se destacam como estes personagens divertidos e ao mesmo tempo desagradáveis. Personagens que mesmo vivendo em camaradagem, não hesitam em enganar uns aos outros.

E em meio às alucinações, à crítica impiedosa presente no roteiro e à quebra de linearidade no tempo, Trainspotting só podia ter uma trilha sonora que combinasse perfeitamente com a rotina de Renton e sua trupe. Nomes como Lou Reed, Iggy Pop e Underworld embalam esse longa mais que desenfreado. 
    
Sem qualquer preocupação em nos fazer chocar, Danny Boyle estampa na nossa cara o sentimento de auto- suficiência provocado por uma vida regada a entorpecentes que fazem estes personagens criticarem a sociedade de consumo. Mas quem foi disse que as drogas não são também subprodutos de uma sociedade de consumo?


13 de agosto de 2015

Crítica: Planeta dos Macacos - O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes, 2014)

    
   
    Há um pouco mais de 50 anos atrás, o escritor Pierre Boulle trouxe ao mundo uma das obras que mais influenciou o universo da ficção-científica e da cultura pop. Seu livro inspirou o cineasta Franklin J. Schaffner a lançar em 1968 o clássico “O Planeta dos Macacos” estrelado por Charlton Heston e que entrou para a história do cinema . A partir de então, a franquia estendeu-se para variados rumos na tv e no cinema trazendo em 2011 o ótimo reboot “Planeta dos Macacos: A Origem” nas mãos de Rupert Wyatt. Fazer uma sequência com a mesma qualidade do seu antecessor foi um grande desafio para o diretor Matt Reeves, mas que felizmente ele conseguiu superar em todas as proporções. “Planeta dos Macacos: O Confronto” (Dawn of the Planet of the Apes) não é apenas um excelente blockbuster, mas um filme que carrega questionamentos impactantes acerca da natureza humana que reside não apenas em nós, homo sapiens, mas também em nossos primos, os símios. Mais sombrio e maduro, o novo longa consegue criar uma tensão crescente ao espectador.
    Na trama, a população humana foi quase dizimada pelo vírus da gripe símia criado em laboratório 10 anos antes, restando apenas alguns sobreviventes em meio a um cenário pós-apocalíptico nas grandes metrópoles como São Francisco. Contudo, na imensa floresta, os macacos liderados por Cesar procuram construir sua própria sociedade baseada na paz e sabedoria. Quando um grupo de humanos adentra o território dos símios para tentar reativar uma usina hidroelétrica, o estopim para um tenso e violento conflito entre as duas espécies é iniciado.


    Se no primeiro filme o foco principal é abordar a forma como os macacos adquiriram a sapiência elevada, em O Confronto nos deparamos com um belíssimo primeiro ato onde Matt Reeves aprofunda a humanização e a organização social dos símios. A fotografia exuberante das tomadas iniciais na floresta enriquece o grau de realidade ao longa, tornando aquele território belamente palpável.  Mas o foco principal está no desenvolvimento comportamental entre seres de uma mesma espécie. E este desenvolvimento está retratado nas figuras de Cesar e Koba. Enquanto Cesar conheceu amor e carinho com os humanos, Koba conheceu a dor, o sofrimento e a ganância. E isto é refletido na personalidade de cada um deles, principalmente quando eles voltam a ter contato com os humanos. Em Cesar reside a compreensão fazendo-o enxergar a bondade, principalmente em Malcolm (interpretado por Jason Clarke), entretanto, em Koba há apenas o crescimento do ódio. No grupo dos humanos há também o seu representante antagônico, que ao sentir repúdio dos macacos pela desolação em que a humanidade se encontra, reflete o enorme grau de ignorância do personagem. Paz x Ódio. Tolerância x Preconceito. Dois contrapontos brilhantemente explorados pelo roteiro.
    Mas não é apenas o bom roteiro que engrandece a dualidade vista nas figuras de Cesar e Koba. Além, é claro, dos efeitos visuais impecáveis, a performance do elenco empregada pela captura de movimentos trouxe neste filme um nível absurdamente realista. Andy Serkis, brilhante e excepcional como sempre, confere à Cesar a complexidade que o personagem merece (os planos inicial e final focados em seu olhar foi uma opção genial do diretor). Ressalto o mesmo para Toby Kebbell, que se entrega completamente na pele de Koba. O elenco dos personagens humanos encabeçado por Jason Clarke, Keri Russel e Gary Oldman acaba sendo ofuscado por todo o elenco dos personagens símios, que além dos já mencionados Serkis e Kebbell, há também Nick Thurston como o filho de Cesar, Olhos Azuis e a atriz Karin Konoval que interpreta o dócil orangotango Maurice.
    Se nos dois primeiros atos do longa há um extenso espaço para diálogos expositivos (e a excelente demonstração da comunicação através de sinais feita pelos símios), no terceiro ato vemos cenas de ação, todas perfeitamente coreografadas em planos elegantes, justificando a eficiente direção de Matt Reeves.
    Planeta dos Macacos: O Confronto dialoga com a nossa história, a história da humanidade e a construção de todas as civilizações ocidentais e orientais. Toda sociedade em construção por mais sábia que seja e mesmo com as tentativas de paz, não consegue se distanciar dos conflitos e das guerras. Como disse o filósofo Thomas Hobbes: “O homem é o lobo do homem”. E essa teoria associa-se perfeitamente às duas civilizações do filme. César sabe disso e o plano final nos confirma o que estar por vir no próximo filme.


2 de agosto de 2015

Crítica: O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel, 2014)


     Não é sempre que vemos uma comédia aventuresca ser cuidadosamente desenvolvida através de um roteiro inteligente e bem amarrado. Em seu mais novo e elegante trabalho, Wes Anderson prova ser um dos cineastas mais peculiares e originais dessa geração. “O Grande Hotel Budapeste ” é, sem dúvida, uma das obras mais agradáveis lançadas em 2014 e visualmente um deleite para nossos olhos. Inspirado nos trabalhos de Stefan Zweig e com roteiro assinado pelo próprio Anderson, o filme nos conta a história de Monsieur Gustave (Ralph Fiennes), um famoso concierge do luxuoso hotel localizado no país fictício de Zubrowka que tem como seu protegido o jovem Zero (Tony Revolori), o novo Lobby Boy do hotel. Juntos, em meio a um período de guerra, os dois se envolvem numa intriga familiar, fazendo com que Gustave seja acusado de um homicídio e do roubo de um famoso quadro renascentista.
    Recheado de personagens divertidos que muitas vezes aparentam ser irreais, o filme propõe ao seu expectador uma história que poderia perfeitamente ter saído de um conto de aventuras. Ao assistirmos cada interação do protagonista com os demais personagens do enredo dentro de um cenário multicolorido, nós conseguimos perceber uma deliciosa fábula sendo construída diante de nossa vista. Wes Anderson nos instiga para uma diversão incomum, onde cada participante representa uma estranha caricatura que só ele mesmo sabe fazer (e muito bem). Temos um herói injustiçado, um vilão sem escrúpulos, um casal de apaixonados. Todos eles moldados por uma narrativa contagiante e com uma boa e chamativa dose de humor adulto e inteligente. Vale lembrar que em seus dois trabalhos anteriores, “O Fantástico Sr. Raposo” (2009) e “Moonrise Kingdom” (2012), Anderson bebeu da mesma fonte fabulesca (que parece estar em seu íntimo) para criar histórias distintas e tão adoráveis quanto a construída em O Grande Hotel Budapeste.
    E para uma narrativa tão peculiar, ele adotou um recurso bastante lúdico para o desenvolvimento da história. Com uma divisão em capítulos como se fosse um livro sendo contado, o longa passeia por cada etapa e obstáculo vivido por Gustave, como sua estadia na prisão, a perseguição do vilão Jopling (um inusitado Willem Dafoe) e a ajuda de personagens secundários vividos por Bill Murray, Owen Wilson e outras divertidas participações.

    Outros fatores que tornam o filme mais lúdico é a deliciosa trilha sonora composta por Alexandre Desplat (um parceiro corriqueiro de Anderson nos últimos anos) e a famosa paleta de cores sempre utilizada pelo diretor em sua filmografia. Desde o cenário até ao figurino, o uso proposital de tons pasteis misturados às cores mais vivas enaltece a influência de Anderson na construção de todo o design de produção do longa. Uma característica curiosa é a mudança de razão de aspecto em tempos distintos da narrativa. Nas cenas protagonizadas por Jude Law e F. Murray Abraham com suas conversas para relembrar o passado do hotel, opta-se pelo Scope. Entretanto, na maior parte estamos assistindo a jornada de Gustave e seu ajudante Zero (Tony Revolori) em razão de aspecto de 4:3, uma característica singular que não vemos com tanta frequência no cinema atual.
    Ralph Fiennes mostra que possui um lado cômico dentro de si e constrói trejeitos comportamentais tornando Gustave um protagonista a ser adorado pelo público e claro, adorado também por ser o maior amigo e mentor do jovem Zero. Este, interpretado por Tony Revolori protagoniza ao lado de Saoirse Ronan o casal de heróis e literalmente os salvadores da grande intriga policial desencadeada pelo vilão. É impossível citar todas as participações inclusas num elenco tão memorável em que vemos nomes como Tilda Swinton, Edward Norton, Adrien Brody e Harvey Keitel.
    Com uma imaginação fértil, Wes Anderson está sempre recriando novas maneiras de nos contar fábulas para adultos costuradas por excelentes roteiros que por vezes estão cheios de sátiras e um humor único. E “O Grande Hotel Budapeste” é o filme mais "andersoniano" do cineasta. O filme que mais possui as melhores características do cinema tão rico e inventivo dele. Considero este filme a obra-prima de Wes Anderson, um verdadeiro presente para os cinéfilos com uma combinação perfeita de versatilidade e elegância.

1 de agosto de 2015

Crítica: True Detective - 1ª Temporada (2014)



     Séries e filmes produzidos pela HBO quase sempre são um deleite para nossos olhos. O alto padrão televisivo (que mais parece cinema) é uma marca registrada por este que é um dos canais VIP da tv americana. Este nível de qualidade nós podemos enxergar em diversas séries como a atual Game of Thrones. E em 2014, surgiu esta que é uma série que já a partir de seu primeiro episódio confirma que veremos mais uma grande e maravilhosa produção da Home Box Office.
    Escrita pelo iniciante roteirista Nic Pizzolatto, True Detective deixa claro que desde o início o foco principal são seus personagens, em especial a dupla protagonista, fazendo com que o enredo e a narrativa sirvam como um brilhante guia para nos aprofundarmos na psiqué e nos conflitos destes personagens.
    Preciso avisar que não pretendo revelar muitos detalhes da série, uma vez que isso estragaria a experiência para quem ainda não a assistiu. Portanto, se você está lendo este texto sem ter visto a série, não se preocupe, pois você não encontrará spoilers importantes que comprometerão os mistérios do enredo.
    True Detective é essencialmente uma série antológica. Sua primeira temporada tem início e desfecho próprio com personagens próprios e isso é algo fascinante na narrativa escrita por Pizzolatto. Ele nos apresenta uma trama composta de duas linhas temporais, mas que paralelamente estão inter-relacionadas. No ano de 2012, vemos os detetives Marty Hart (Woody Harrelson) e Rust Cohle (Matthew McConaughey) sendo interrogados por um assassinato polêmico que aconteceu 17 anos antes no interior da Louisiana. Através de flashbacks, voltamos ao ano de 1995 e assistimos a dupla tentar solucionar o maior e mais sinistro caso da carreira deles.



   A premissa citada acima pode aparentar ser simples, mas True Detective desenvolve ao longo de seus 8 episódios uma das tramas mais originais já produzidas que foge dos típicos clichês que vemos em muitas séries investigativas por aí. Com questionamentos existenciais e filosóficos e ecos de uma influência de contos de terror e fantasia, a série leva o expectador a um estado hipnótico. Termina um episódio e você já quer de imediato assistir ao próximo. É surreal o poder que a narrativa de Pizzolatto têm sob a mente do expectador, e ele faz isso sem o propósito de subestimar ninguém.
    Nos primeiros episódios, vemos os dois protagonistas se conhecer e formar uma dupla que tem tudo para não lograr êxito em sua missão. Rust e Marty são completamente diferentes um do outro. Uma diferença abissal! Enquanto Marty é um típico policial que trabalha pela família e gosta de levar uma vida normal, Rust é a pessoa mais pessimista que existe na face da Terra. Ele escolheu uma vida solitária por motivos sutilmente revelados à medida que entendemos o personagem. Seus estranhos comentários filosóficos (e até niilistas) levam às questões fundamentais para a trama, afinal, há Luz e Escuridão em tudo que existe nesse vasto mundo. (E por que não haveria em cada um de nós também?!). O caso que eles precisam desvendar traz à tona as complexidades que Rust e Marty possuem. À medida que a série avança somos apresentados à camadas e mais camadas que vestem cada um deles. E com isso, nós, expectadores, nos tornamos tão obcecados quanto eles.


    Para interpretar personagens tão obscuros, apenas atores de exímia competência poderiam dar conta deles. E Matthew McConaughey e Woody Harrelson dão um show de atuação! Matthew que ganhou um Oscar por “Clube de Compras Dallas”, consegue em True Detective uma performance assustadoramente incrível (que deu a ele a indicação ao Emmy) e a maquiagem usada nas cenas do ano de 2012 exalta o quanto seu personagem está devastado. Mas Woody Harrelson não fica para trás. Ele esbanja em cena uma performance que revela tão bem as nuances que caracterizam Marty nas duas linhas temporais da história. E mesmo com poucas personagens femininas, estas se destacam, principalmente Maggie, esposa de Marty (interpretada pela talentosa Michelle Monaghan).
    A direção de Cary Fukunaga é um show à parte. Responsável pelos 8 episódios da temporada, Fukunaga cria aqui uma qualidade linear em sua forma de dirigir. Todos os episódios são belamente filmados e orquestrados por ele. Ressalto aqui a incrível cena de 6 minutos filmada em plano-sequência que fecha o episódio 04 e deixa qualquer um completamente sem fôlego. É cinema de qualidade, e não tv! A fotografia e trilha sonora exuberantes transformam o cenário em mais um personagem. A desolação da Louisiana pré e pós-Katrina são o palco perfeito para essa história.
    Quero fazer aqui uma menção honrosa à belíssima abertura da série que ao som da música ‘Far fom any road’ da banda The Handsome Family já é uma das aberturas mais perfeitas das séries televisivas. Aliás, a trilha sonora inteira da série só acrescenta mais qualidade para True Detective, com músicas que casam muito bem com a melancolia e obscuridade dessa série.
    O fim dessa temporada foi algo comentado em todos os lugares. Minha opinião sobre ele é  que em vez de criar um desfecho mirabolante, Pizzolatto optou por algo mais simples que explicou de uma forma sóbria (mas emocionante) os conflitos de seus protagonistas.
   Depois de uma excelente primeira temporada, True Detective foi considerada a melhor nova série de 2014. Este ano está vindo a segunda com uma nova história e um novo elenco. 
    
   E você...já foi à Carcosa?