1988. Alemanha Oriental. O jovem Alexander Kerner (Daniel
Brühl) participa de uma manifestação quando é agredido pela polícia. Sua mãe,
Christiane Kerner (Kathrin Sass), ao ver aquilo, sofre um infarto e entra em
coma durante meses. Durante o tempo que ela ficou desacordada, o país passou
por mudanças políticas e o Muro de Berlim veio abaixo, marcando então o fim da
divisão entre Alemanha Ocidental e Oriental. Christiane, uma grande defensora
do Comunismo, acorda de seu coma, mas com a saúde bastante debilitada e o
coração fraco. Seu filho Alex é então alertado pelo médico de que qualquer
grande emoção ou choque pode ser fatal para o coração de sua mãe. Alex resolve
utilizar sua criatividade para esconder da mãe as mudanças e a influência
capitalista que atingiu a região oriental do país após a unificação. E para
isso ele conta com a ajuda de sua irmã Ariane (Maria Simon ) e seu amigo Denis
(Florian Lukas), um aspirante a cineasta.
Com essa premissa, “Adeus, Lênin!” (Goodbye, Lenin!) já revela ao espectador uma história interessante e envolvente ambientada numa época complicada e de transição pela qual a Alemanha passou. Mais que um filme sobre um período histórico e importante, nós assistimos uma história de amor entre mãe e filho, que conta com muita delicadeza a dedicação e o carinho que aquele filho possui para com sua mãe. O diretor Wolfgang Becker se despe de uma carga excessivamente melodramática para seguir um caminho contrário. Com muita sobriedade, ele aposta numa mistura de drama familiar com toques de humor inteligente para nos contar uma história tão bela e tão rica em reflexões sócio-políticas e ideológicas.
Wolfgang faz questão de mostrar ao público o quanto o fim do Comunismo atingiu a população da Alemanha Oriental, que após as transformações no país, via-se uma forma de "mudar de vida" com o fim do regime, mas em meio ao capitalismo e a concorrência com a população da ex-região ocidental, a grande maioria encontrava empregos menores. No filme, vemos a irmã de Alex se tornar uma atendente do Burger King e o próprio Alex como um vendedor de tv a cabo, ressaltando então que o capitalismo chegou imponente por lá, mas desfavoreceu a vida dos habitantes da antiga parte oriental do país.
Entretanto, em meio aos posicionamentos sociais, o diretor nos emociona e ao mesmo tempo nos diverte com as atitudes do jovem Alexander ao tentar esconder da mãe o fim do Comunismo no país. Com a ajuda de seu amigo Denis, Alex cria um telejornal falso que simula os noticiários da época anterior à queda do Muro e explica certos detalhes como o grande banner da Coca-Cola posicionado ao lado da janela do quarto de Christiane.
Se o filme já é envolvente pela sua premissa, ele passa a ser mais ainda graças ao excelente elenco encabeçado por Daniel Brühl e Katrin Sass. Brühl e seu exímio talento como ator, nos cativa primorosamente com o seu personagem Alexander e seu amor pela mãe. Katrin Sass interpreta perfeitamente a mãe, Christiane, e nos emociona com uma personagem tão forte e ao mesmo tempo sensível, que defende a todo custo o estilo de vida comunista. Os coadjuvantes Florian Lukas e Maria Simon também demonstram grande competência em cena como personagens essenciais ao plano de Alexander.
Além de uma direção bastante competente, o roteiro escrito por Wolfgang Becker em parceria com Bernd Lichtenberg também justifica a excelente qualidade do longa. ”Adeus, Lênin!” concorreu ao Globo de Ouro e ao BAFTA de melhor filme estrangeiro em 2004, além de ter sido premiado no Festival de Berlim e no César Awards. Prêmios mais do que justos para uma obra tão edificante. O cinema alemão é um pólo que sempre traz filmes relevantes e cineastas promissores que não precisam estar em Hollywood para serem apreciados pela comunidade cinéfila. E “Adeus Lênin!” é a soma de todas as melhores qualidades que o cinema germânico tem a oferecer. E acima de tudo, é uma abordagem histórica e reflexiva moldada através de uma bela história sobre a relação entre mãe e filho.









