14 de setembro de 2015

Crítica: Chinatown (1974)


Um dos filmes mais célebres realizado por Roman Polanski, “Chinatown” levou o cinema noir em uma direção totalmente nova, subvertendo o sonho americano em um retrato mais sombrio e sujo da América. Considerado como um filme neo-noir, ele apresenta uma nova roupagem ao gênero famoso das décadas de 30 e 40, que continham sempre as figuras do detetive, da femme fatale e de vilões abomináveis, todos envolvidos em intrigas policiais. 

Em Chinatown, Jack J. Gittes (Jack Nicholson) é um detetive contratado para investigar um caso de adultério a pedido de uma mulher que ele acredita ser Evelyn Mulwray (Diane Ladd), esposa do engenheiro–chefe do Departamento de Águas e Energia de Los Angeles, Hollis Mulwray (Darrell Zwerling). À medida que o caso se desenvolve, Jack se envolve com a verdadeira Sra. Mulwray (Faey Dunaway) em uma intriga de corrupção, fraude,  assassinato e incesto, que de forma magistral desconstrói a típica narrativa de filmes investigativos. Aqui não há espaço para reviravoltas simplistas, mas sim para um desenvolvimento complexo cheio de sutilezas em sua narrativa.
    
O roteiro excepcionalmente escrito por Robert Towne e muito bem amarrado (não foi à toa que ganhou um Oscar de melhor roteiro), revela cuidadosamente os seus muitos mistérios com uma narrativa inteligente e mostra personagens dúbios e cínicos, enaltecendo o lado sujo da natureza humana. Observa-se que é muito difícil determinar quem é o criminoso e quem é a vítima em Chinatown. O tema da ambiguidade moral sustenta o filme. O próprio detetive Gittes apresenta uma moral questionável, apreciando piadas machistas e algumas vezes portando um comportamento agressivo inconsequente (como vemos na cena da barbearia).

Jack Nicholson oferece uma das melhores performances de sua carreira como Gittes, um detetive inteligente, espirituoso e que tem más recordações do bairro Chinatown, no centro de Los Angeles, onde trabalhou durante um período. Truques simples, mas inteligentes, são feitos por ele em sua investigação, como quando ele coloca um relógio sob os pneus do carro de Hollis Mulwray à noite para ver quanto tempo o carro ficou estacionado. Esses momentos nos permitem conhecer a personalidade de Gittes. Além disso, vemos Chinatown através dos olhos dele. Roman Polanski fez questão de retirar qualquer narração em off, filmando tudo sob a perspectiva de seu protagonista (como se a câmera estivesse sempre posicionada sobre os ombros de Gittes), fazendo o espectador ter a impressão de sempre acompanhar as investigações do detetive como se fosse uma testemunha invisível de todos os acontecimentos ao redor dele.

Faye Dunaway vai além da típica femme fatale. Ela incorpora uma personagem que mais que sedutora, esconde segredos profundos e sombrios de seu passado, tornando-a a personagem mais misteriosa e implacável do longa. Em boa parte do filme, não sabemos suas reais motivações no envolvimento com o detetive Gittes nem se a mesma está de fato envolvida na morte do marido. Também vemos a excelente participação de John Huston, como um homem vil e inescrupuloso. Quando entra em cena, Huston rouba todo o momento para si. O próprio Roman Polanski faz uma ponta no filme na famosa cena em que o detetive Gittes tem seu nariz cortado.

“Chinatown” também é notável pelo fim trágico de sua história.  O final foi concebido por Polanski em oposição ao roteirista Robert Towne. Polanski foi provavelmente influenciado por sua própria experiência amarga do assassinato brutal de sua esposa Sharon Tate por seguidores de Charles Mason em Los Angeles.
    
Mesmo em meio aos conflitos entre diretor e roteirista, “Chinatown” é a combinação de todos os elementos que fazem dele um filme inesquecível: desde a inteligência do roteiro e a elegância cinematográfica, passando pela fotografia inovadora para o gênero noir, deixando o clássico P&B e apostando em uma paleta com cores terrosas e uma trilha sonora sublime composta por Jerry Goldsmith. Uma trilha que contribui não só para o clima de tensão e intrigas mas também para dar um certo sabor da década de 30.

Mais do que um clássico inesquecível, vejo em “Chinatown” como um estudo envolvente da corrupção moral, um tema tão relevante hoje como era no tempo em que ele foi filmado.

4 de setembro de 2015

Crítica: Garota Exemplar (Gone Girl, 2014)

    

Sempre que fico sabendo de um projeto assinado por David Fincher, já começo a contar os dias para conferi-lo. Não apenas pelo fato de Fincher ser um de meus cineastas favoritos, mas sobretudo pela certeza de que terei uma experiência cinematográfica sem igual. A qualidade é uma marca registrada em seus filmes. Basta lembrar de thrillers como Seven e Zodíaco e dramas memoráveis como A Rede Social. Em Garota Exemplar (Gone Girl), Fincher mais uma vez nos presenteia com uma obra impactante, crua e minuciosamente bem orquestrada.
    
O filme não é um mero thriller sobre assassinato, mas uma excelente mistura de drama policial com estudo de relacionamentos. Fincher e a roteirista Gillian Flynn, que também escreveu o romance do qual o filme foi adaptado, estão mais preocupados em mostrar as falsidades presentes em um casamento “perfeito” do que apenas nos dar pistas e detalhes de um crime. O diretor e a roteirista pintam o casamento como um verdadeiro jogo.
    
Nick Dunne (Ben Affleck), é, sem trocadilhos, um parceiro super-herói: charmoso, carismático e bonito. Ele escreve para uma revista masculina como ser o "cara perfeito". Mas para um cara perfeito, precisamos de uma garota perfeita. Conhecemos Amy Elliott Dunne (Rosamund Pike), uma linda escritora de livros infantis, cheia de classe, mas que mantém um senso de humor. Desde criança, Amy foi considerada a garota ideal, a Amazing Amy, título esse que nomeou a personagem de seus livros infantis. No quinto aniversário de casamento dos dois, Amy misteriosamente desaparece. Nós passamos a conhecê-la através de seu diário que está sendo lido para nós ao longo do filme. A mídia representada pelo jornalismo sensacionalista, não apenas suspeita que Nick é o responsável pelo sumiço de sua esposa, mas rapidamente demoniza-o como assassino, sociopata, e um possível praticante de incesto.

    
Um dos muitos méritos de “Garota Exemplar” está na estrutura do roteiro escrito por Flynn, nos intrigando ao oferecer os dois pontos de vista para os acontecimentos da narrativa: o de Nick mostrado durante o dia-a-dia das buscas pela esposa, e o de Amy representado pela narração em off de trechos de seu diário. A narrativa torce e destorce seus protagonistas, fazendo o expectador variar em suas opiniões sobre cada um ao longo do filme. Ora torcemos pela inocência de Nick, ora o chamamos de canalha. Mas vou parar com certos detalhes da trama já que o maior prazer deste filme é descobrir cada reviravolta com olhos desavisados.

Fincher e Flynn, mostram ser uma das melhores duplas de diretor-roteirista em anos. Em um romance policial, estamos acostumados ao tapete sendo puxado debaixo de nós e em Garota Exemplar isso vai além. O resultado é um dos filmes mais surpreendentes do ano passado e Fincher faz questão de chamar a atenção para algumas coisas. Por um lado, ele satiriza o jornalismo que hoje muitas vezes beira ao sensacionalismo. Por outro lado, Fincher e Flynn fazem com que todos sejam suspeitos e que o expectador não consiga desvendar os mistérios facilmente.


O elenco é outro grande mérito do filme. Ben Affleck tem aqui sua melhor performance até agora. Nick Dunne é o papel perfeito pra ele. Sua dificuldade em sorrir naturalmente e sua falta de expressão em alguns momentos são os atributos perfeitos para este personagem. Enquanto Affleck é sutil, Rosamund Pike se entrega de corpo e alma numa personagem vestida por camadas e camadas de mistério. Certamente esse é o papel da carreira de Pike e que a fez ser indicada ao Oscar. Fincher surpreende ao escalar seu elenco de apoio, trazendo nomes famosos da comédia como Tyler Perry e Neil Patrick Harris em atuações super convincentes, além das ótimas Kim Dickens e Carrie Coon e de Patrick Fugit (o eterno garoto de “Quase Famosos”).
   
Em mais uma colaboração com Fincher, o editor Kirk Baxter, o diretor de fotografia Jeff Cronenweth e os compositores Trent Reznor e Atticus Ross fazem dos elementos técnicos outros personagens da trama. A edição é espetacular do primeiro ao último frame e a fotografia exalta todo aquela atmosfera melancólica que circunda os personagens. A trilha de Reznor e Ross complementam o tom crescente de tensão ao utilizar instrumentos diferentes para compor faixas sonoras.
    
No 10º filme de sua carreira, David Fincher atinge o equilíbrio brilhante de encontrar um novo território, mesclando o thriller com o drama e toques de humor ácido. Se sua carreira tem sido uma série de pinceladas que pintam um retrato da alma decadente da sociedade, “Garota Exemplar” é um dos mais audaciosos (e um dos mais divertidos também).