7 de outubro de 2015

Crítica: O Congresso Futurista (Le Congrès, 2013)


Quando o cinema fala do próprio cinema nós, expectadores, somos convidados a viajar numa exposição cheia de auto - referências e detalhes minuciosos que configuram o cinema seja como arte ou como indústria. “O Congresso Futurista” (Le Congrès) é uma obra que justamente aborda esse tema que vez ou outra é utilizado por alguns cineastas.  Depois de se consagrar com a animação documental “Valsa com Bashir” em 2008, o diretor israelense Ari Folman retorna ao universo animado (misturado ao live-action), para dessa vez fazer uma crítica à indústria cinematográfica e ao poder que a mesma possui sobre a sociedade. E ele utiliza ferramentas diferenciadas para desenvolver seu filme. Uma pitada surrealista mesclada ao uso da metalinguagem faz de “O Congresso Futurista” uma das ficções-científicas mais densas e interessantes dos últimos anos.

O filme gira em torno da atriz Robin Wright interpretando ela mesma e utiliza alguns aspectos biográficos de sua carreira e vida pessoal. Cotada como queridinha do cinema na época de filmes como “A Princesa Prometida” (1987) e “Forrest Gump” (1994), Robin aparece na primeira cena visivelmente abalada ouvindo seu agente Al (interpretado por Harvey Keitel) explanando as causas que levaram a carreira de Robin ao fracasso: escolhas erradas, papéis em filmes ruins, a decisão de deixar a atuação de lado para cuidar da família. Ele a informa sobre uma importante reunião com um executivo de um grande estúdio de cinema, onde lhe propõem a novidade tecnológica que irá revolucionar a sétima arte: ser escaneada para se tornar uma atriz digital e sua imagem ser usada pelo grande estúdio, aqui chamado de Miramount (uma clara e irônica referência à Miramax e Paramount). Para isso, ela precisaria dar um fim à sua carreira no mundo real, conferindo a ela tempo para cuidar de seu filho mais novo que sofre de uma doença degenerativa que acomete a visão e a audição.

Nesse primeiro ato, o diretor Folman destila todo seu veneno ao fazer uma crítica ácida aos grandes estúdios e produtores executivos que visam única e exclusivamente o lucro.  Ao digitalizar um ator, os realizadores de um filme não mais sofreriam com os problemas envolvendo atrasos, vício em álcool e outras drogas, depressão, temperamento difícil e outros tormentos que afligem inúmeros atores de Hollywood. Os estúdios lucrariam exorbitantemente apenas com a imagem digital, negando aos atores a liberdade criativa para escolher papeis e gêneros de filmes.


É no segundo ato do longa que Folman opta para a imersão no surrealismo. Após 20 anos da assinatura de seu contrato com a Miramount, vemos Robin a caminho de um grande congresso onde será homenageada. Para chegar lá, é preciso inalar uma substância que a transforma em um desenho animado. A cenografia do filme investe num tom lisérgico, misturando traços de animação japonesa com desenhos clássicos do Mickey e um visual que remete ao psicodelismo de Yellow Submarine dos Beatles. Em meio a esse cenário surreal, o roteiro critica a alienação do público perante as promessas impostas pela mídia, como a criação da substância que ao ser ingerida lhe dá a aparência que desejar, até mesmo ser igual a uma celebridade. A tal substância representa a ilusão do livre arbítrio utilizada no filme.

Mas o posicionamento crítico de Ari Folman vai além. No terceiro e melancólico ato, ele nos mostra a partir da busca de Robin pelo reencontro com seu filho, uma visão crítica e um tanto quanto pessimista do futuro da humanidade. Enquanto muitos preferem delirar num mundo animado onde possuem o “livre arbítrio” de serem o que quiserem, outros vivem a desolação que encontra-se o mundo real.

Robin Wright está magnífica, transpondo para esse projeto tão ousado, uma performance orgânica e comovente. Aliás, todo o elenco está excelente. Desde um maquiavélico Danny Huston na pele do chefe da Miramount, até um Harvey Keitel que oscila perfeitamente entre momentos imponentes e momentos doces. Faço também uma menção honrosa à bela participação de Paul Giamatti como o médico do filho de Robin.

Assim como os grandes estúdios cinematográficos utilizam os roteiristas, diretores e principalmente os atores como meros objetos de lucro, o poder midiático está aí para ilusionar a sociedade e usá-la como um simples objeto de massificação. E é por isso que considero “O Congresso Futurista” uma obra mais que atual.